sexta-feira, 28 de março de 2008

Sem Cor

Era pintor.
Conduzia calmo o seu velho ford, mentalmente mergulhado na cor das suas telas. A sua rua aproximava-se. Era já no próximo cruzamento...
Bruscamente sentiu explodir uma massa gigantesca na traseira que o esmagou contra a mancha branca do airbag que detonava...

Acordou da coma, quarenta e três dias depois dum cherokee ter abalroado por trás o seu carro a oitenta e sete quilómetros por hora. Os médicos tinham já levado a cabo um levantamento minucioso das regiões do cérebro afectadas pelo acidente. O Córtex visual, na nuca, tinha sido o mais danificado pelo embate traseiro. Esperavam agora, curiosos, a reacção do paciente ao abrir os olhos.
E ela veio.
Primeiro o vislumbrar, o sentir de uma névoa e depois… um focar muito lento e esforçado dos contornos, das manchas, do vagaroso materializar do desenho das caras que o observavam.
Havia algo, contudo, que o fazia sentir-se num sonho, ao não acreditar naquilo que os olhos lhe diziam: o cintilar das hastes metálicas do médico mais próximo de si revelavam um brilho…diferente. Algo esbranquiçado. Leitoso.
O choque, esse, aconteceu ao dar com a face de Olívia, a sua mulher.
Sentiu estremecer todo o seu débil corpo: a pele feminina que o acompanhara durante doze anos, outrora rosada, agora encontrava-se cinzenta, sem vida. Olhou em volta num pânico muscular.
Tudo se encontrava cínzio, como num luto a preto-e-branco.

Tinha acordado num mundo sem cor.

A percepção das cores, essa, tinha-a perdido para sempre.

À chegada a casa, o cão veio lamber-lhe a cara, pousando as patas no seu colo ainda encostado à cadeira de rodas. Sentia as unhas do animal cravarem-se-lhe a través do tecido das calças, e desagradava-lhe o seu cheiro, agora mais forte.
Olívia empurrou a cadeira de rodas pelo soalho. O olhar dele passou pela taça de fruta, sempre cheia. As uvas pareciam vidro e as maçãs papel… ao observá-las não se lembrou do seu sabor. Pensou nisso, desconcertado.
O cão saltava em volta da cadeira de rodas, empurrando os bancos da cozinha num chiar rombo.
Cheiros e ruídos começaram a ter um novo estatuto na hierarquia dos seus sentidos, após a morte das cores no seu mundo.
Olhou para o focinho do cão. Os seus olhos eram também de vidro, como as uvas. Via agora também o mundo como aquele animal…
Após alguns dias, o acto de olhar para as suas mãos cinzentas já não molhava a sua face de lágrimas.
Essas aconteceram num soluço violento, num inesgotável uivo de desepero quando Olívia se desnudou a primeira vez. Em pé, banhada pela luz cinza do candeeiro. Observou-a dolorosamente. A pele perdera toda a textura, parecia o gesso coberto de tinta dum manequim antigo.
Olívia, estremecida, apertou-o contra o peito durante horas enquanto ele soluçava, violenta e silenciosamente, aos sacões…

Apesar de ter abandonado a cadeira de rodas e percorrer a casa pelo seu pé, havia duas semanas, ainda não tinha entrado no atelier. Uma porta branca mantinha fechado e inerte o mundo que ele criara com cores de que se tinha fácilmente esquecido…

Cada vez que comia fechava os olhos. Os alimentos possuíam um aspecto repugnante.
Vomitou a primeira vez que viu esparguete.

Um dia, empurrado pelo psicólogo, entrou finalmente no atelier.
De olhos semicerrados, a primeira impressão foi duma violenta agressão ao seu olfacto, a do cheiro das tintas.
Olhou as telas. O nó na garganta sabia a acrílico.

Recomeçou a pintar, semanas depois. Reconhecia as cores pelo cheiro dos químicos e recomeçou a utilizá-las. Dizia em voz alta os seus nomes, de olhos fechados e narinas abertas...

Um dia, num passeio pelo campo olhou o horizonte.
Uma mancha de luz, mais clara, nele mergulhava. Era um arco-íris. Tentou imaginar o seu aroma...
Fotos»Guido Mocafico/Emmanuel Turiot//Wallpaper

18 comentários:

Maria Manuela disse...

Meu foguete lindo, este teu post está fantástico...

Admito que já por várias vezes pensei como seria perder um dos sentidos, tendo inclusive racionalizado qual deles abdicaria se tivesse que escolher....

Mas a visualização da cor.... nunca me tinha pensado nisso desta forma...

bj

Rocket disse...

M&M

Contaram-me esta história andava eu na faculdade, os pormenores recriei-os eu, com ajuda de alguns estudos a que tive acesso. A teoria da cor é fantástica. Porque versa sobre que algo que na verdade sente-se tão real mas não existe de facto, apenas a sua percepção. A cor é uma sensação e o mundo é na verdade...a preto-e-branco...


essa de pensar em qual abdicarias... é mesmo teu, eh eh
bjinhos

Helena disse...

Como seria eu sem distinguir as cores...

Não sei...


Acho que não seria ninguém , à minha volta tudo é cor, tudo se desenvolve na cor...

Gostei imenso deste teu post... fantástico...


Beijinho

Rocket disse...

helena

Têm muita importância na nossa existência, as impressões que todos os nossos sentidos nos facultam...


beijinhos

Anónimo disse...

Ana disse....
Assim gosto!Uma fotografia de qualidade a preto e branco.Ainda estou à espera dos teus traços,nao tem importância a cor (daqueles que começam pelos pés,lembras-te?)E daqueles que também contam historias.....eles estao là quando é que ....saem cà para fora?
Beijinhos

Bombocaa disse...

Quando eu era pequena...há uns dias portanto, eu punha-me a pensar...se calhar o que pr mim é verde...assim como eu o vejo...pr os outro é amarelo...e pr outros é azul...pensava se cd pessoa via a mesma cor ou não...
nao me fiz entender...tb n faz mal...
Olha ja viste o filme " o escafandro e a borboleta"?
Se nao viste....e se tiveres oportunidade vê...

Rocket disse...

ana

Estás a ver a preto-e-branco?!Ui! :-)

aqui vai o que pediste:

o
- I -
L

bjinhos :-)

Rocket disse...

bomboca

tenho que ver o escafandro e a borboleta...haverá no videoclube?

Não é giro descobrir que afinal o mundo é preto e branco e um objecto que para nós é vermelho no fim de contas é o que não quer nada com o vermelho (a radiação correspondente relectida pelo mesmo, absorvendo todas as outras da luz branca).


bjinhos

Afrika disse...

É engraçado, como damos por garantida determinadas coisas... e que tão bem se aplica a frase "só damos valor aquilo que não temos"...

Rocket disse...

Afrika

Existe uma frase da qual não me lembro...aliás, ando sempre a tentar lembrar-me em que se refere...ama o que tens... que é talvez o correspondente ao ...no matter what you have. important is how you spend it...

bj BB

Carla disse...

re-inventar as cores pelo aroma...a mistura dos sentidos para relativizar a dor
gostei imenso desta cor, ou melhor desta ausência de cor
tens um desafio nos meus "desalinhos"
bom fim de semana
bjs

Rocket disse...

carla

Fico satisfeito. Obrigado.
Ai desafios...


beijinhos

Mlee disse...

Ausência de cor ... e logo eu que adoro cor ... tenho um hall laranja, uma cozinha rosa shock, um quarto com uma parede a caminho do roxo ... complicado... a percepção da cor tem um papel importante na minha vida ... o simples daltonismo (como o meu pai) já me faz confusão. Como qualquer outra percepção, se nos faltar, é certamente compensada com outras, como dizes, o olfacto, o tacto.
Para mim o olfacto é a mais primária e quase a primeira percepção, sou extraordinariamente conduzida pelo cheiro das coisas e das pessoas, por isso não resisti ao sorriso, perante o aroma do arco iris :)
Tenho uma amiga com uma bébé de ano e meio que é surda. Não imaginas a capacidade de adaptação não só daquela criança, como de todas as crianças que a rodeiam ... é absolutamente fantástico, como brincam e se zangam, como se fosse só mais uma (mas será que eu não aprendo a fazer comentários de três linhas ... ?!?)
Beijoooooo

Rocket disse...

mlee

Podes escrever as linhas que quiseres...será sempre um prazer lê-las, e gratificante pensar que o que eu próprio escrevo te faz reflectir assim tanto...

beijinhos

D.Antónia Ferreirinha disse...

é lamentável quando como num passe de mágica nos apercebemos que aquilo que sempre valorizamos, para além de perder o sabor perdeu também a cor.
O cinzento predomina e não existe mais razão que justifique perpetuar um erro, aquilo em que tudo se transformou.
O texto é lindo.
Gostei.
Beijinho.

Rocket disse...

d.antónia ferreirinha

é o duo de posts que mais gosto, querida.

beijos

D.Antónia Ferreirinha disse...

Beijo em ti.
:-)))))))

Rocket disse...

d.antónia ferreirinha

kiss, kiss . )