terça-feira, 30 de setembro de 2008

!arghx!#@crrr!!/!?!@#grrr"%!!!

O meu vinha dentro da bagagem de cabine... ficou no controlo do aeroporto.
Tentem encontrar gel de cabelo num hipermercado em Luanda... Terroristas dum raio...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

horário de jogo

O futebol, em Portugal, é um jogo que se pratica
entre as oito da noite e as seis da manhã.
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domingo, 28 de setembro de 2008

zen

Sou impaciente. Não de natureza, mas de convicção. Mal chego, tenho que ser atendido. Por um motivo: porque tem de ser assim. Porque as coisas estão más, e é obrigatório servir melhor que o parceiro. E, servir melhor implica rapidez, eficácia, inovação... e surpresa. Certo?
Pois é. Tudo isto...mas na Europa.
Em África esperámos uma hora na bomba, para encher o Jinny de gasolina. E ontem à noite não havia... muitos dormiram no carro à espera...
Da próxima vez, em Portugal, que tiver que esperar mais que três minutos em qualquer lado, vou sorrir, em vez de exibir o tal ar rottweiler...

sábado, 27 de setembro de 2008

meus ricos gatinhos...

Isto foi apanhado a tentar entrar num condomínio, por aqui...

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O Futuro

Imaginem acordar num sítio onde a angústia mais que certa do dia seguinte é substituída pelo significado mais luminoso da palavra Futuro...
Bem, é onde eu tenho despertado, nos últimos dois dias.
Cheguei há três noites atrás, e é, de facto uma alegria que qualquer um consideraria indescritível, mas que é propósito deste texto descrever o melhor possível, a maravilhosa realidade de um país em que todo o tecido humano se conjuga para construir um futuro próspero, abundante e generoso a uma velocidade vertiginosa.
É uma sensação única, fugir dum lugar em que o desalento, desespero e o medo do dia de amanhã constituem o amargo tempero dos dias cinzentos e mergulhar na vertigem do optimismo de outro que encara o futuro com o mais radioso sorriso...

Não... não morri e não acordei no paraíso.

Encontro-me num país africano, com todas as suas características vicissitudes, e mal cheguei, nos primeiros minutos de trabalho, começaram a surgir os primeiros problemas a resolver, por aqui. Mas (e com que satisfação escrevo esta conjunção) por mim, tudo bem... melhor, tudo óptimo! Foi para isso que vim. Para fazer parte do conjunto de soluções que levarão Angola, talvez o país mais promissor do continente africano, a um patamar elevado entre todas as economias e sociedades deste planeta.
É único. Julgo que nunca senti nada igual. Disfrutar da emoção de saborear o verdadeiro significado das palavras esperança, optimismo e futuro... até me esqueço que escrevo num pc...

Embora um dos mais caros portáteis do mundo, este, o que me foi adjudicado...

sábado, 20 de setembro de 2008

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

patine

Não gostam da velhice?
Amo-a, vou morrer de saudades dela.
Quando tinha doze anos, em África, existiam coisas cuja falta me pesava: a chuva das noites de Natal na Baixa, colorida e iluminada, e o ruído dos autocarros verdes de dois andares ao passarem grandes e desajeitados no granito molhado.
Mas, sobretudo, morria de saudades da velhice das casas e paredes de Lisboa. Sonhava com o dia em que a iria afagar com os olhos...
Adoro velhos bairros, onde se entra em lojas perdidas no amarelo dos calendários, em que nada foi vendido e tudo por nós espera, protegido por uma fina farinha de anos... É assim, longe da música, que encontro a beleza do tempo.

A minha casa é velha.
Antiga? Não. É velha... mesmo.

É a casa dos meus sonhos.
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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

gatos...

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Tenho um gato que gosta quase tanto disto......como o dono.

Ivan!... Pira-te!...

E lá vai ele com cara de I'll Be Back...Onze segundos depois reaparece e recomeça as tentativas de se apropriar daquele aconchego... Vence pela insistência e pelo humor da coisa, e conquista, repatanado, o seu novo e fofo sofá...

terça-feira, 16 de setembro de 2008

a chama

A longínqua amizade é uma pequena, brilhante e sempre viva chama-piloto, alimentada pela saudade, até à hora de acender o imenso calor dos afectos.

style // charles bukowski

Style is the answer to everything.
Fresh way to approach a dull or dangerous day.
To do a dull thing with style is preferable to doing a dangerous thing without style.
To do a dangerous thing with style, is what I call art.
Bullfighting can be an art.
Boxing can be an art.
Loving can be an art.
Opening a can of sardines can be an art.
Not many have style.
Not many can keep style.
I have seen dogs with more style than men.
Although not many dogs have style.
Cats have it with abundance.

When Hemingway put his brains to the wall with a shotgun, that was style.
For sometimes people give you style.
Joan of Arc had style.
John the Baptist.
Jesus.
Socrates.
Caesar.
García Lorca.
I have met men in jail with style.
I have met more men in jail with style than men out of jail.
Style is a difference, a way of doing, a way of being done.
Six herons standing quietly in a pool of water, or you, walking
out of the bathroom without seeing me.
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domingo, 14 de setembro de 2008

coisas destas... acerca destas coisas

Hoje de manhã, na cozinha, enquanto espalhava manteiga no bagel : "hum, um donut com rigor mortis"...

Vou sentir a falta de ouvir coisas destas... acerca destas coisas...

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A Bela & O Monstro

Um gajo com dinheiro e uma gaja sem escrúpulos? Não... um homem com um carácter fascinante e uma mulher de uma sensibilidade extrema...

sábado, 13 de setembro de 2008

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

inteligência zero...

...é considerar uma guerra... santa.

the usual dinamic duo...

Numa noite de chuva, dois carros batem. Um de um advogado e outro de um médico. Ao sair do seu, o médico, preocupado, dirige-se ao do advogado e pergunta-lhe se está ferido, examina-o sumariamente e constata não haver nada de grave. Só então os dois passam a verificar o estado dos carros e como se deu a batida. Chegam à conclusão de que não havia como escapar do acidente: estrada molhada, escura e mal sinalizada. Como, todavia, o advogado já tinha ligado para a GNR, resolveram ficar à espera enquanto a viatura não chegava, para avisar os guardas que cada um ia assumir seus prejuízos. Conversa vai, conversa vem, o advogado vai ficando íntimo do médico e até lhe oferece uísque. O médico aceita, bebe três goles, bem longos, e pergunta:
- E você, amigo, não vai beber?

O advogado responde, com um sorriso:
- Só depois da polícia chegar.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

leis das coisas simples

A minha tentativa de contínua compreensão das leis das coisas simples dá nisto: há três meses que corto o meu próprio cabelo. Ninguém nota, e estou satisfeito. Atenção... devem existir poucos homens tão zelosos da sua imagem como eu.
Muito poucos, mesmo.

microhamburguer

Almôndega crua e um piparote.
Alcaparra, on top...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

a loucura

É maluco-e-dá-dentadas-nas-maminhas-das-criadas

Há semanas participei num acontecimento cultural bizarro. Uma... tertúlia. Numa galeria de arte, com mesas, cadeiras e copos, reuniram um músico de renome que iria apresentar àquela plateia o seu livro de crónicas, plus o artista plástico cujas obras se encontravam por lá expostas, e dois ou três intelectuais cuja função ali era a de apresentar cada um e a sua obra.
No meio da plateia para ali sentada existia ainda uma poetisa e mais alguns ilustres conhecidos e desconhecidos.
A cada exposição dos apresentadores a palavra "arte" saía disparada a cada dez segundos, e a palavra "loucura" a cada minuto. Bem, no caso do discurso de interrupção permanente do dono da galeria, era um ex aequo paritário. Tratava-se de um homem de ar alucinado... um artista. Não o era, mas pretendia o estatuto e assim adoptava o estereótipo do artista que eu julgava afastado já do imaginário público. Envergava-o. Numa pose ascético-patética, afastando com as costas da mão os seus fartos cabelos cor de prata, do alto do seu metro e sessenta e cinco, discursou uma mensagem de abnegação, de despojamento, que era o espírito com o qual abraçava a missão de explorar aquele espaço. Não lhe interessava, de todo, o lucro, porque o seu único e grandioso objectivo era o de congregar, além dos ilustres que se sentavam cercados pelas telas e pequenas esculturas, artistas de renome como os que estavam na mesa nobre e fazer acontecer... cultura.
Ele próprio os apresentou e enalteceu as suas virtudes como artistas... e loucos.
Não foi o único. Nem todos os que tomaram a palavra eram perfeitos idiotas. Um famoso colunista e um conhecido professor universitário mesmo assim acasalaram, de novo, perante nós, as palavras "arte" e "loucura".

Aquela sensação de me encontrar entre medievos... veio de novo.
Nenhum, felizmente, era crítico de arte, mas a moinha que me transportou para o século XIII nasceu do facto daqueles homens, num plano elevado, traduzirem a impressão que o vulgar cidadão possui do que o artista faz e que tipo de profissional ele é: um louco, indisciplinado, sem objectivos, alucinado, inconsequente e anti-social.
Nada podia ser mais falso e simultaneamente mais emblemático do atraso em que se encontra o estudo de muita coisa relacionada com o homem. Com um ênfase preocupante para o estudo e definição da inteligência em si.
O artista deve ser, de todos os profissionais, o que abraçou o maior desafio no mundo do trabalho. Refiro-me aos verdadeiros artistas, aqueles que buscam e desenvolvem o seu próprio percurso, os "originais"... ficando de fora desta reflexão os que exploram as fórmulas criadas por outros, como por exemplo aqueles que no século vinte e um ainda pintam quadros com uma linguagem impressionista (e têm mercado, pois só agora muitos começaram a gostar do impressionismo, que data do século dezanove).
Vou usar uma, pouco frequente por, aqui analogia:
Um engenheiro resolve problemas, como qualquer profissional. No caso da travessia dum rio, é-lhe fornecido o problema - atravessar o rio - e o seu trabalho é fornecer a solução - uma ponte que respeite todas as condicionantes agregadas, como prazos, custos, qualidade e outros.
No caso do artista, ele cria o problema, as condicionantes e a solução. Ou melhor, ele detecta o problema que ninguém vê e resolve-o. Cria os seus próprios rios, as suas próprias pontes, e as condicionantes inerentes a tudo isto.
E, neste processo, encontra-se inteiramente só.
Tomemos como exemplo, nos referidos impressionistas, Monet. Tendo-se apercebido que a sua contemporânea fotografia cumpria melhor a missão da arte até essa altura (problema...e não pequeno: dar um sentido à arte... à pintura ), descobriu novos caminhos ao começar a exploração da mistura de cores na tela e não na paleta segundo os princípios da emergente teoria científica da cor, saindo do atelier para os campos, para captar numa difícil impressão pessoal da luz. Impressão essa que transmitia à tela.
Este tipo de atitude profissional requer uma disciplina brutal. É o artista que estabelece o seu próprio horário de actividade, as suas metas, os seus limites, é ele que cria o seu próprio purgatório laboral... E tudo isto num nevoeiro de solidão. Encontra-se só na demanda dos seus objectivos pois só a obra acabada se explica, se resume e pode, só aí, ser alvo de análise.
Esta solidão condiciona, na maior parte das vezes, um vida afectiva nómada e insustentada. E não só a solidão. O factor que determina o tipo de raciocínio que um artista exerce, nem todos e todas o possuem e raro é o homem que não partilha os seus dias em conversa com a sua companhia. E ouvidos capazes de entender a loucura?
Mas afinal, o que é a loucura? Porque se considera o artista um ser bizarro? Muitos deles vendem a sua loucura mais cara que automóveis topo-de-gama, e alguns jactos... de vários lugares. Então... não são loucos, pois não?
Não. Não são. Possuem um tipo de inteligência que se encontra muito mal estudado...
Após milhares de anos de civilização, é que alguém muito timidamente apareceu a abordar o estudo da inteligência. O psicólogo inglês Howard Gardner, professor da escola de educação de Harvard e da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston, apresentou a sua Teoria da Inteligência, há apenas quinze anos: Para Gardner, existem cinco tipos de inteligência usados por nossa mente para enfrentar o mundo. A inteligência espacial (que envolve a capacidade de ler mapas e de encontrar a saída de um labirinto), a inteligência corporal cinestésica, a inteligência interpessoal e intrapessoal e a... inteligência artística. A inteligência, à falta de melhor, chamada de artística é a que se manifesta na criação e reflexão da arte. Eu chamar-lhe-ía sintética pois refere-se a uma reinterpretação e reconstrução da realidade apercebida a outros níveis, cognitivo e reflectivo.
Quem ganha a vida usando este tipo de inteligência, não poderá nunca chegar a casa e falar sobre o serviço. Muito poucos o perceberão. A solidão será sempre uma constante. Poderá ter sorte, se conseguir reunir dois factores frente a si: possuir uma capacidade de comunicação verbal tradutora do seu percurso e encontrar alguém sensível à mesma... duas agulhas num palheiro.
O artista tem de abraçar uma existência quase missionária, de sacrifício. E ao prosseguir os seus objectivos, o horário de trabalho será de vinte e quatro horas, sem férias. Não trabalha com os braços, ou com as mãos. É com a mente.
Todos partilhamos um imaginário de figuras de artistas sofridos, de existências dramáticas, aventureiras, incompreendidos... loucos. Não confundam os que, por uma questão de imagem usam o look à artista. Esses são os artífices das artes decorativas.
Os artistas autênticos não são loucos. São apenas seres que abraçaram uma profissão que os consome como a cera duma vela, porque o tipo de reflexão que para ela usam ainda não está estudado de forma a os acondicionar no resto de tudo.
São seres humanos que se sacrificam, para nós todos podermos ter emoções estéticas renovadas, uma geração após outra.
E são profissionais a sério.

FOTO: THE MAD HATTER’S TEA CUP DE MICHAEL GOODWARD. WEBLOG AQUI.
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terça-feira, 9 de setembro de 2008

proferir, a sorrir

Não gosto do meu nome, lido ou dito por extenso, salvo em raras excepções... Mas agradam-me as suas iniciais. Muitas vezes as utilizo, em vez dele.
Quem me conhece daqui, pensa que gosto de escrever. Gosto de escrever sim, dando uso a um tipo de raciocínio que irei referir no post seguinte, mas não me agrada, de todo, a linguagem escrita quando é usada por mim para comunicar apenas com uma pessoa.
Não lhe dando muito uso, gasto fortunas em telemóvel...
JCRB são as iniciais do meu nome. Profissionalmente, uso as do meio. Na tropa era JB...
Não gosto do meu nome, lido ou dito por extenso, salvo em raras excepções: soube-me bem hoje ouvi-lo, após alguma espera no atendimento para as vacinas necessárias para uma viagem que farei daqui a dias em direcção aos trópicos.
Também se comprova que sou alguém que faz brilhar o dia a quem me atende, se do sexo feminino. As senhoras que comunicaram comigo por ali devem ter mantido durante algum tempo o sorriso com o qual me brindaram quando com um sonoro e amistoso bom dia me despedi.
Cada nome devia ser proferido a sorrir...

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

todos iguais...

ESTE TAMBÉM QUINOU...
...mas uns mais iguais que outros, segundo Hollywood.
É já o terceiro filme, que vejo, em que vários encetam uma operação de salvamento arriscada para salvar um. O primeiro foi o Saving Private Ryan. O segundo foi o King Kong, em que toda a tripulação dum navio enfrenta uma selva recheada de dinossauros e um macaco de três andares, e o terceiro, vi-o ontem: Jurassic Park III, em que um grupo tenta salvar um rapaz duma ilha infestada de dinossauros. O denominador comum de todos os estes filmes é que os salvadores são muitos no princípio e, no desenrolar da película, nazis, dinossauros, penhascos, insectos e macacões vão dando cabo de uma forma atroz de... todos os salvadores. No caso de Saving Private Ryan... para aí uns vinte. No King Kong outros tantos e uns quatro ou cinco no Jurassic Park III (o grupo de salvamento era mirim). Contudo, apesar de todo este massacre, os filmes acabam bem. E porquê? Porque cada um dos sãos e salvos foi sobrevalorizado em relação aos que se perderam, na chuva de projécteis de 20 mm dos SS, ou na garganta dum Tiranossauros Rex. Uns eram a carne para canhão de todos os dias e os outros as estrelas do costume.
Caramba, afinal os filmes não são assim tão diferentes da realidade... Alguém me empresta duzentos e cinquenta mil euros para uma matrícula? Pode ser igual à do outro... também me chamo CR e 7 é o meu número favorito...

domingo, 7 de setembro de 2008

Quatro Patinhos

Olha! Quatro patinhos!... Possuo dois relógios de pulso, e um deles é digital... Hum? Eu sei... mas é bonito, descansem... Ok... A maior parte das vezes que o meu olhar é atraído por ele, calha, com exactidão, às 22h22. Achava graça à coincidência, que verificava acontecer em todos os outros por onde passava, na rua... no do carro e moto, inclusive. Chamava ao grupo 2222... Quatro Patinhos. Outra capicua com a qual tropeço amiúde é a das 11h11. Por isso, quando dei com este artigo da Cosmopolitan francesa, em casa de amigos, há dois dias atrás, achei-o engraçadíssimo e resolvi partilhar a coisa convosco.
E vocês, qual é o vosso número?...


"Chaque fois que vous levez l'oeil sur une horloge électronique - celle du magnétoscope par exemple - vous voyez apparaître les mêmes nombres : 11h11 ou bien 0707. Que se passe-t-il ? Les nombres affichés avec insistance reflètent un état d'âme. D'après Robert Hopcke, directeur du Centre d'études symboliques d'inspiration jungienne, il s'agit d'une synchronie de confirmation : on lit sur l'horologe la confirmation symbolique d'un sentiment qu'on éprouve. Traductions :

0000»Absence, sacrifice, attente, silence mental, préparation.

0101»Solitude, isolement, moi, principe paternel.

0202»Dualité, antagonisme, complémentarité, principe maternel.

0303»Pensée,idée, verbe, volonté, communication.

0404»Forme, force, terre, cycles naturels, gouvernement, pouvoir.

0505»Vie, création, transmission, activité, vitalité, magnétisme.

0606»Initiation, harmonie, loyauté, sagesse, choix.

0707»Prise de conscience, association, évolution, spiritualité.

0808»Libération, loi, discipline, éthique, conscience.

0909»Compléxité, vie intérieure, humanisme, recherches.

1010»Confiance en soi, réalisations, fortune et élévation, travail.

1111»Charisme, aspect visionnaire, nervosité, soif de pouvoir, rébellion.

1212»Clairvoyance, épreuves évolutives, karma, renoncement volontaire.

1313»Mort et résurrection, mutation cyclique, goût du changement.

1414»Mouvement, progrès, instabilité, involution.

1515»Passion, sexualité, magnétisme, volonté, régression.

1616»Fierté, besoin de solitude, purification, orgueil, isolement.

1717»Volonté de dépassement, force créatrice, imagination.

1818»Amour supérieur, réceptivité, magie, illusion.

1919»Lumière universelle, pensée transcendente, énergie fécondante.

2020»Rapidité, besoin de raison, alternance rapide de hauts et de bas.

2121»Succès final, sagesse divine, synthèse, couronnement.

2222»Prestige et renommée, sens de la mission, génie.

2323»Agilité, don pour les communications, protection, héritage."

sábado, 6 de setembro de 2008

1 : O "à propos" da Su...

Directamente da Madeira, por e-mail, o "à propos"da Su...

Um pai judeu, com a melhor das intenções, enviou o seu filho para o colégio mais caro da comunidade Judia. Apesar das suas intenções, Samuel não ligava puto às aulas.

Notas do primeiro mês:
Matemática 2
Geografia 3.5
Historia 1.7
Literatura 2
Comportamento 0

Estas espantosas classificações se repetíam-se de mês a mês, até que o pai se cansou:
- Samuel ouve bem o que te vou dizer, se no próximo mês as tuas notas e o teu comportamento não melhorarem, vou-te mandar estudar para um colégio católico.
No mês seguinte as notas do Samuel foram uma tragédia, só comparável ao naufrágio do Titanic e o pai cumpriu com a sua palavra. Através de um rabino próximo da sua familia, contactou com um bispo que lhe recomendou um bom Colegio Franciscano para o qual Samuel foi enviado.

Notas do primeiro mês:
Matemáticas 18
Geografia 16
Historia 18
Literatura 20
Comportamento 20

Notas do segundo mês:
Matemáticas 20
Geografia 18
Historia 20
Literatura 20
Comportamento 20.

O pai surpreendido perguntou-lhe:
- Samuel, O que te aconteceu para ires tão bem na escola?
Como é que se deu este milagre?
- Não sei papá. Apresentaram-me todos os colegas e a todos os professores e logo de tarde fomos a uma igreja.
Quando entrei, vi um homem cruxificado, com pregos nas mãos e nos pés, com cara de ter sofrido muito e todo ensanguentado.
Perguntei, quem é Ele? E respondeu-me um aluno dos cursos superiores:
"Ele era um judeu como tu". Então disse para mim:
F**-SE ... aqui temos que estudar, que estes gajos não são para brincadeiras!!!

season

Abertura oficial da estação de enchimento da pele até ao próximo Verão.
Tu, que afirmas que o teu corpo é o teu templo, não te esqueças que os ginásios estão abertos.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

playground

No recreio: - O meu pai é melhor que o teu!
Responde o outro: - Não é nada! O meu é melhor!
- Está bem, mas... a minha mãe é melhor que a tua!
- Ok... o meu pai também acha...

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

1 : O Sofá : Conclusão

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Nunca me custou tanto começar a escrita de algo...
Pudera... como o faço? Como declaro? Como informo pessoas pelas quais tenho apreço e amizade, que as enganei, que as burlei, que o texto que publiquei na segunda-feira, comprido como tudo, e que muitas emocionou... é uma meticulosa fraude?
É uma fraude. Um embuste. Aquele deus que sentei no sofá e foi causa de emoção e crédito...não existe. Não acredito no deus que vos vendi. Nem numa sílaba, nem numa letra daquilo. Não acredito em divindade alguma.
Sei que muitos de vós dirão: "em alturas de maior dificuldade, acreditas, decerto. Como todos os que dizem que não..." Já as tive, e para perceberem o quão difíceis eram, na altura o que sentia, para além da dor, era o profundo horror de não acreditar, de saber que estava só. E a solidão perante a adversidade é a pior de todas, mas é também a que mais fortalece quem vivo fica...
Não acredito numa só linha daquele texto que até a mim me emocionou. E emocionei-me, a mim e outros, porque coloquei lá todos os ingredientes que sabia necessários para tal. Por exemplo, sou pai, e nessa condição sei onde me dói. E ao reler certas passagens, eu mesmo senti comoção.
Um texto maldito. Porquê?
Sou um homem do mundo, vivido, bom ouvinte e bom interlocutor, e bom amigo, embora cultivando uma independência invulgar. Até chegar aqui à chamada blogosfera, as dores das pessoas que gosto, por mim sentidas pela empatia presente no profundo afecto que lhes devo, partilhava-as em privado. Chego aqui e a coisa muda de figura. Deparo com uma multidão de desconhecidos, e, dia após dia vou desenvolvendo afectos, alimentados pelos desabafos diários de todos, neste âmbito. As pessoas dão-se a conhecer a si, aos seus anseios e às suas dores, às suas dúvidas...
...E angústias. Das quais, uma em particular à qual fui sensível: a angústia de ser ou não ser aceite... a de não encaixar no figurino. São pessoas boas, as que a manifestam, segundo uma escala de valores humanista. A maior parte que refiro, apesar das coisinhas que todos nós temos, são bons seres humanos.
E muitos sofrem, porque o sistema de valores que impera, imaturo, não acompanhou a evolução dos tempos, e sobretudo, tem base num regulamento religioso com origens na idade média, tendo evoluído muito pouco desde aí.
Muitos dirão: "ah, eu quero lá saber, eu faço a vida que quero e ninguém me chateia...". Vocês sabem que não é bem assim. Quem realmente faz a vida que quer, na sociedade ocidental, incorre no conceito de pecado social. Vive em pecado, e sente isso todos os dias. Nem é preciso nada de espectacular, como exemplo. Basta chegar à tal idade e ainda se encontrar por casar. Tenho uma amiga que, por todos os motivos e a mais alguns, representa uma vida de casada na empresa onde trabalha... As pessoas são pressionadas para se encaixarem no figurino... É que nem direito a guetto existe para os que se estão nas tintas para uma moral de cariz religioso, pois têm de levar com ela todos os dias!
E o que condiciona o figurino? Criaturas como a que criei, com a diferença de o terem sido criadas por outros.
Atentem bem no deus que sentei para ali, segundo o Gabriel que nem abriu o bico, comprado pelos valores divinos, como meio mundo. Pois é... houve quem referisse a corrupção, mas não a do dinheiro. Eram pequenas coisas, como o Bourbon secreto que o não devia ser, E uma tradição de ilustres rabos sentados naquele sofá, todos poderosos, que pagavam a peso de ouro um dos prazeres mais iníquos de quem tiraniza: ouvir-se a si mesmo perante alguém ilustre e capaz.
Desta feita uma criatura supostamente divina, reconhecida por todos como o pai do andar de cima, o ideal, para controlar a criançada rebelde. Gabriel é corrupto, sim, porque foi pago para fazer só parte do seu trabalho, e não concluir a restante. Porque se o fizesse, diagosticaria uma patologia grave com contornos infanticidas. O velho, sendo um pai ausente, ainda assim cultiva uma insidiosa "doce expectativa de recolha do que de maravilhoso daí poderia resultar". Ora um pai que tente isso com qualquer filho...
Um pai tem de dar a cara e acompanhar e, sobretudo, não castiga com milhares de anos de ferro e fogo por um pecado. Este velho nunca perdoou... só o seu filho maior se mostrou capaz de tal, e ele próprio não foi devidamente amado. O velho que descrevi não foi nunca capaz de amores tranquilos. É um homem de paixões doentias, de fobias, de exércitos e de sangues... quantas vezes, no texto lestes a palavra? É o deus ideal para alguém tomar como aliado num exercício de domínio. Um deus tirano, um deus que legitima a tirania.
Gott Mit Uns. Deus connosco. Todos os tiranos o reclamam, como aliado. Quer os que gravavam a frase nas fivelas dos cintos dos seus soldados e que cujo objectivo era um reich de mil anos ou os outros que ainda querem um reich de mais dois mil...
Em Nome De Deus, em pleno século XXI, apedreja-se até à morte e explodem-se comboios, autocarros, prédios e aviões. Mas nada disto é tão presente nas nossas vidas como o modelo que nos é imposto, a obrigatória forma de viver a que as religiões a todos nos obrigam, baseadas no pressuposto desejo de um deus que o determina.
Escrevi "O Sofá" com o intuito de demonstrar a facilidade com que todos nós podemos ser enganados. Criei um falso deus, ainda assim credível, e fi-lo em três horas, tendo-o apresentado depois. Uma religião qualquer tem séculos à sua disposição.
O que é curioso é que o deus que criei, um maníaco, é aceite. Todos os deuses o são. Houve vários, durante a História. Raro era o que não fosse violento e cruel.
Sentei-o num sofá.
Outros, mergulhados em peças de mobiliário análogas, cobertos pela penumbra apesar do sol radioso que molha as ruas, para dominar as nossas vidas invocam o apoio de velhos assim...

Tenho inveja de duas coisas. A primeira é de quem teve uma infância maravilhosa. E a segunda é de quem tem um Deus maravilhoso. Gostava de contar com essas realidades na minha vida. Tanto para uma, como para outra... é tarde.

Não foi intuito meu negar o Divino... Aquele deus, é que não. Liberdade religiosa também se manifesta no direito de não acreditar. Preceitos não devem ser considerados valores.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

1 : O Sofá : Pacto

Antes de concluir a comunicação relativa ao tópico "O Sofá" necessito de estabelecer convosco um pacto de não-agressão: prometem que não me odeiam... declaradamente? E, se me odiarem (em segredo, segundo o pacto)... não lerei por aqui nenhum tipo de agressão escrita?... Lembro-vos que anunciei, por altura da sua publicação, que existia truque envolvido... 
...Eu avisei... 
Fico à espera...

terça-feira, 2 de setembro de 2008

os epílogos

Gajo importante é o medíocre que toma conta da excelência quando o excelente acaba com a mediocridade

SÓ PARA OS QUE GOSTAM DA MÚSICA, EIS A MINHA FACETA SERVIÇO PÚBLICO
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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

1 : O Sofá

Setembro. Dia um. O silêncio das seis da manhã era o palco para o sussuro das folhas das árvores perdidas em ensonadas carícias, excitadas pela brisa mal desperta. O afastado bru dos motores da rua do quarteirão depois, sonora nos outros dias daquele consultório de Psicologia Clínica, ainda não se fazia sentir. O tic ritmado do relógio de mesa, um Buben & Zörweg herdado do pai Penha Navarro, psiquiatra judeu de terceira geração, ecoava desajustado no silêncio das madeiras e dos livros. Aquele tic não pertencia aquela hora, mas sim às noites no gabinete-consultório de Gabriel Penha Navarro, bem como o do gelo que batia no copo de Jack Daniels, secreto por ser Bourbon e não o malte dos homens sérios...
Esfregou ligeiramente o olho esquerdo, sem saber bem o que fazer por naqueles momentos enquanto esperava o misterioso alguém que lhe reclamou o dia.
A única referência que tivera fora a do homem de beleza seráfica de trinta e poucos anos que lhe apareceu por lá que com um breve sorriso lhe disse duas coisas: "também me chamo Gabriel" e "duzentos e cinquenta mil euros" e o fez sentir algo, inquietante, que depois se evaporou da sua memória.
Mal o louro saiu, consultou a sua conta no Dell e verificou a transferência prometida, de cem mil.
A partir desse dia, até aquela manhã, um ou dois comprimidos de Olcadil passaram a fazer parte da sua dieta e não conseguiu nenhuma erecção de relevo.
Seria mais um problema a resolver, a apreensão de Beatriz...

Então, no meio de todos os silêncios, o Psicólogo sentiu o nervosismo desvanecer-se como o esfarrapar de uma pequena nuvem.
Por instinto, dirigiu-se, calmo, à porta, atravessando a sombra da recepção. Ao abri-la, encontrou um homem idoso nas escadas. Sentiu ridículo o impulso de levar a mão ao bolso em busca de moedas, mas o seu olhar rendeu-se ao sólido porte, à curta barba branca e às poucas rugas diluidas numa pele muito clara, punctuada por dois inexpressivos olhos cinzentos... duas pequenas gotas derramadas de mercúrio. Viu-o passar por si a trespassar o espaço até ao seu gabinte, numa flutuante sombra da cor do fato cinzento, e seguiu-o, baixando os olhos no caminho sem saber porquê.
Foi com uma calma inusitada que indicou, ao velho, o sofá.
Era uma peça de mobiliário muito antiga. Tinha sido pertença última, também, de Penha Navarro pai, e, segundo o mesmo, chefes de estado e mesmo um rei tinham conhecido o frio macio do seu couro velho. Era um sofá curto, e quem lá se sentasse, não depositava nele meramente o corpo. Envergava-o.
Não conseguia dar uma idade ao velho ali sentado. O sofá encontrava-se mergulhado numa inexplicável penumbra: adivinhava-se a glória do sol, lá fora.
Gabriel Sorriu. O seu confiante sorriso era um dos seu trunfos, naquele gabinete. Usava-o para quebrar o gelo, fazer aparecer um golpe de tosse... uma palavra.
E o velho falou.
- Estou aqui porque se passou demasiado tempo desde que o que me aflige entrou nos meus dias. E ainda não saiu.
O psicólogo ia intervir, mas o velho continuou.
- Sou pai, e não estou a lidar muito bem com isto.
Gabriel tinha ouvido ali muita coisa, mas aquele homem tinha uma voz de oitenta anos. Pai? Que idade teria o filho? O velho prosseguiu.
- Não lhe interessa nem a minha idade, nem a do meu filho, ou filhos. Eu sei que para si seria útil sabê-lo, mas vai ter de lidar com uma realidade mais imprecisa que o habitual. Apenas lhe afirmo que eu sou um velho, e por isso decidi ter um último filho, que é um homem na força da idade.
- Porque afirma que é um velho?- Começou Gabriel.
- Porque cheguei a uma altura em que achei que teria que dar continuação à minha obra por outrém, passar a pasta. E de facto, sinto-me cansado. Sentia-me cansado, e agora não melhorou. Piorou até, porque a angústia de nada poder fazer, chegou a um nível insuportável.
Angústia, afinal. Gabriel sentia-se aliviado. Aquele velho, pela sua idade, seria um material de trabalho hostil. Qualquer problema sério nas fundações de uma casa velha normalmente deixava-se estar... Mas uma mera angústia... afinal seria fácil, talvez. E o velho continuava...
- Trata-se do seguinte: a minha obra e a do meu filho, encontram-se registadas em dois livros reunidos num fólio. O primeiro livro refere a minha obra, exclusivamente. É extensa e foi drenante, Esgotou-me. Entreguei-me a ela, e a ela só.
A minha obra refere-se à criação de toda uma nova realidade, de um novo mundo recheado de personagens e seres magníficos. Um novo céu, novos mares e novas estrelas e planetas, que cuidadosamente afastei de um... que elegi, como um pequeno jardim.
O velho olhou para a janela e os seus olhos brilharam, como que a projectar uma nuvem de memória que atravessava a sala e escorria através do vidro subindo através do fru das folhas dos plátanos em direcção ao cru cião do céu da manhã...
- Fiz tudo com muito amor, e com uma paixão desmedida. Entre todos os seres elegi um que se me assemelhava e dotei-o de uma capacidade, superior à dos outros, de compreensão de todo o resto da minha obra. E fiquei numa doce expectativa de recolha do que de maravilhoso daí poderia resultar.
Nesta altura Gabriel começava a sentir-se esmagado pelo ar da sala. Dir-se-ía que mergulhara, sem se dar conta, num lago de ar denso dum outro planeta. As cores começaram a perder valor tonal e a sala começou a metalizar-se, aproximando o seu registo cromático do dos olhos do velho, que o observava.
- Doutor Gabriel, necessito da sua atenção.
Naquele momento, vinte a cinco anos de ascendente profissional sobre quem tinha entrado naquela sala terminaram com a frase daquele velho. Gabriel sentia-se menino sentado no colo do seu avô, enquanto o ancião Penha Navarro recordava a sua fuga através da Europa, ainda jovem, de homens que estremeciam os soalhos quando os pisavam e que ostentavam nas fivelas dos cintos polidos, a inscrição
Gott Mit Uns... E o velho prosseguia, apesar de todas as metamorfoses.
- Esperava algo de maravilhoso da minha criação, mas o resultado... Nem eu nunca imaginaria algo assim. A criatura a quem transmiti todas as capacidades, feita à minha imagem, revelou-se capaz das piores coisas. E dentro das piores, a pior de todas: uma capacidade indómita de se odiar a si mesmo. E como o alvo do seu ódio era a sua imagem, era a mim que ele era dirigido, aquele ódio profundo que não demorou muito a se transformar num banho do líquido vital que lhes concedi... num banho de sangue.
O velho fez uma pausa. Parecia abalado por algum tipo de comoção, pela primeira vez naquela sala. Tudo aquilo era para além de estranho, contudo o psicólogo sentia uma familiaridade inexplicável com o relato. E sem explicação foi também o há-vontade presente na intervenção de Gabriel requerida pela pausa...
- Isso não se encontrava nos seus planos. Abalou-o muito. Tanto que o mudou, certamente. Quer falar sobre isso?
- Sim. Mudou-me. Também eu me transformei. A criatura que criei à minha imagem, contribuiu para mudar a mesma. Após o choque da desilusão tornei-me irascível. E não chegou, continuaram a fazer pior e a desafiar o meu poder paternal. Daí a implacável foi um passo. Transformei-me em algo frio, metódico na destruição selectiva. Todos os que me ajudaram na criação duma maravilhosa realidade, eles próprios minha criação, ataviaram-se sob as minhas ordens com trajos de guerra e espadas de fogo. Metálicos, de obreiros passaram a soldados do mais formidável dos exércitos. E tal era forte a chama do ódio que ardia no mundo que criei, que passaram séculos a matar, queimar, afogar e assolar. Destruíram cidades. Eu mesmo afoguei o mundo, cobri-o de água até ao topo da mais alta das montanhas, e mesmo assim, o ódio presente na semente dos meus filhos era tanto que florescia em qualquer lado. Mesmo na poeira estéril do mais infértil dos desertos o ódio nascia, crescia, corrompia...matava.
Gabriel interrompeu-o.
- Os seus filhos... apercebiam-se de si? Da sua existência? Terá sido claro, ou ainda permanecia o desejo adiado de salvar aquilo que definiu como a "doce expectativa de recolha do que de maravilhoso daí poderia resultar"...
- É verdade. Sempre mantive esse desejo. Poucas vezes me dei a conhecer como pai, como criador. Poucas, e quase sempre nas alturas em que perdia por completo o controle de mim mesmo. É verdade, doutor Gabriel. Até mesmo alguém que cria um universo pode descontrolar-se por obra da natureza dos seus filhos. Por isso, nos melhores de entre eles escolhi os meus mensageiros, os meus representantes, e de cada vez... esperava. E uma após a outra eles eram engolidos na vertigem do ódio. Durante séculos...
- Foi paciente...
- E não o é, qualquer pai? Fui paciente, fui. Nunca perdi a esperança mas... cansei-me.
E olhou de novo para fora dali, para a luz matinal. Ainda não se ouviam os carros. Não se ouvia nada. Gabriel não se atrevia a consultar o relógio, e sabendo que o velho prosseguiria, esperou. E o fio da exposição foi retomado.
- Resolvi ser pai de novo. De uma outra forma. Escolhi uma mulher entre todos os seres e transmiti-lhe a semente. A minha semente de pai. Este filho assim gerado iria revigorar tudo. Iria ser minha nova determinação. E colocá-lo-ia no meio dos seus irmãos sangrentos. Seria a gota que purifica o oceano. E assim fi-lo nascer. De uma forma simples, de glória adiada.
- E como o receberam?- Perguntou Gabriel.
- Como eu previra. Mal a sua excelência se fez notar, começou a representar uma ameaça. Os valores dos habitantes do mundo que criei são rasteiros, mas prezados, contudo. Defendidos com garras e dentes. Toda a glória cobre as paixões dos seres, amores palpáveis que não possuem valor algum... Coisas materiais, supérfulas. Gerei as únicos criaturas que julgam só ser felizes dependendo de tudo o que os outros prescindem, criando para isso bizarros conceitos de território. Nunca imaginei, Dr. Gabriel, que meros pedaços de celulose fossem o mote para disputas sangrentas. Ou que os cadáveres das criaturas primevas, sepultados em visco, armassem exércitos em magníficos choques de fogo... Tão grande era a sua presença que o meu filho veio ameaçar impérios, ao constituir ameaça para os seus deuses. Eles, os deuses de uma sociedade legitimam todos os seus valores, Dr. Gabriel. Ele veio colocar tudo isso em causa, ao dar a conhecer a verdadeira origem do mundo...Eu.
- Compreendo... E que aconteceu, quando se deram conta da ameaça representada pelo seu filho?
- Isso eu previra-o. Desde o princípio dos tempos do universo gerado, para mim foi regra sagrada, neste jogo, nunca verificar o futuro. Mas a estratégia de calcular a lógica sequência dos eventos faz, naturalmente, parte dele. E é claro que calculei o terrível fim mundano que o esperava. Preparei-me, e ele também. Mas nunca senti tamanha dor... não a esperava.
- E essa dor? Mudou-o?
- Sim. Depois do tormento que senti em carne da minha cria, a memória daqueles momentos agonizantes encontra-se presente... em cada segundo.
Os olhos do velho brilharam líquidos num piscar, e Gabriel sentiu-o...
- Contudo, e eu previra isso, o seu sacrifício foi sentido por todas as criaturas. E a sua dor, cantada. Consegui mais com a morte da carne do meu filho e a sua agonia, numa dúzia de anos, que com o terror de todas as visões do inferno e o dos meus alados exércitos de fogo em todos os séculos. Os seres sentiram na sua pele o supremo tormento do meu gerado amor. E foi esse amor que começou a conquistar o coração dos outros, seus primeiros irmãos. E o meu filho foi mestre na gestão da conduta desse amor imparável que por via do seu sacrifício entrou em todas as almas do povo criado e espalhado por mim. E aí permaneceu durante vinte séculos.
- Permaneceu? É esse o tempo verbal que utiliza, o pretérito perfeito simples? - Perguntou Gabriel, intrigado.
- Sinto que se está a desvanecer. Sinto que parte. Ao longo destes dois mil anos, nem todos foram salvos e, mesmo os que me defendiam cometeram excessos. Contudo, ia sendo satisfatório, o resultado. Sobretudo exercendo uma comparação com a fatia dos tempos antes do sacrifício da minha carne...
Gabriel sentiu que chegara o momento que explicava aquela consulta. Quando o velho referiu o filho, o psicólogo sentiu que existiria por ali um esboço de uma qualquer situação edipiana, mas isso desvaneceu-se em minutos, com o desenvolver do relato. E agora Gabriel sentia que chegava a altura... Sentia os olhos do velho a aproximarem-se dos seus, sentia-os a mergulharem na água quente do seu cérebro...

O relato prosseguiu. Mas já não o era. Gabriel ouvia agora o futuro através das palavras do velho. Um futuro estranho, maravilhoso e simultaneamente sombrio. O velho não confiava já na capacidade do amor do filho e sentia-se mais velho que nunca, mas ia agir. Cansado, triste, sem esperança e sem ilusões... iria, contudo, agir. O filho sabia, e andava dilacerado. No mundo gerido por eles ninguém tinha memória alguma das fúrias de seu pai, escritas apenas. Nenhum dos seus irmãos se recordava. Gabriel lembrava agora a terceira sensação que o seu homónimo lhe transmitira, na visita preparatória à do velho, no seu gabinte. Era um olhar. Um olhar de despedida, como se Gabriel fosse viajar para muito longe. Longe de uma realidade corrupta e apodrecida.
Era esse lixo que o velho iria limpar. Tinha desistido. Queria, finalmente, descanso. O filho que arranjasse outro entretém...
O velho calou-se, e dirigiu os olhos para a janela, trespassando-a e depositando-os no céu agora esbranquiçado, uma criação sua. Gabriel percebeu que aquelas duas chapas de mercúrio seriam suficientes para lhe mudar a cor. Esses olhos, que sentira a mergulhar na água quente do seu cérebro... Tal como aquele velho, mergulhado no sofá.
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