segunda-feira, 24 de novembro de 2008

eis


Eis a capa do segundo número, já corrigido. Foi feita após uma falha de energia causada por uma avaria do gerador. Ninguém queria acreditar. Faltavam duas páginas para acabar o caderno a enviar para a gráfica e tive que tratar de questões como manutenção, quadros eléctricos e correias de refrigeração, durante duas horas. Após estabelecer um acordo com uma firma de manutenção dos geradores das duas casas, ali no meio da rua, lá respirei fundo e fiz a capa. No dia a seguir, a TPA entrevistou-me e uma das perguntas foi sobre as infra-estruturas, como elas afectavam o meu trabalho. Respondi que era pela falta delas que eu e outros estamos cá, para as criar. O design é a minha última preocupação, durante um dia de trabalho. O mesmo é passado a resolver problemas técnicos e humanos. A esboçar as tais infra-estruturas.
Um dia Angola será um país próspero e urbano. Sorrirei sabendo que algo se deveu a mim.
A ultima página do primeiro número. Enfim, lá estou eu, bem atrás, encostado à cerca. Não encontrei lugar à frente. Utilizo muito a expressão ''ficar na fotografia'', que aqui se justifica plenamente. Raros são os que se encontram em primeiro plano que participaram activamente, à excepção do director, que com esforço lá arranjou um lugar.
Acompanha-me o meu craque, o Raul, um gigante de vinte e sete anos que nasceu para o design. Se carregarem na imagem ela aparece aumentada.
No fundo da página encontra-se o Zero. Os gatos aqui são malditos, conotados com a feitiçaria.
Encontrava-me eu no meu gabinete e ouvi miar. O Pitigrili entrou ou e disse que estava lá fora um gato a chamar por mim. Desci e após alguns minutos a redacção ficou estupefacta ao ver-me entrar com um gatinho da rua ao colo. Desde esse dia ele segue-me como um cão. Se saio, ele vem a correr, saltando à minha volta até eu pegar na mota e sair. Quando se porta mal é ''o teu gato'' ...''tu é que és o pai dele''. Quando se porta bem é ''o nosso Zero''... É super meiguinho.
Quem assina o texto de opinião é o editor de política, o meu grande José Kaliengue. Eu, ele e o director formámos um trio imbatível naqueles dias sofridos. Mas temos o semanário de referência que nos foi pedido... feito com sofrimento mas também com muita alegria.
Trabalho com homens extrardinários.

domingo, 16 de novembro de 2008

Magno.

Perguntaram-me, por estes dias, como eu sentia, encontrando-me na minha pele. Na pele de alguém decisivo ao lançar ao mundo um jornal que em semanas, após ajustes, decerto se tornará num dos melhores de língua portuguesa e num dos mais agradáveis de folhear do mundo, mesmo para as sensibilidades mais sofisticadas. Faziam-me essa pergunta de todas as formas, e de olhos muito abertos, sobretudo aqueles que acompanharam de perto todas as dificuldades que tive que ultrapassar, a todos os níveis, desde a falta de sistema informático devido a um incêndio até à falta de fotografias por desajuste com as agências noticiosas e outros factores. Todo o transporte de ficheiros entre computadores foi feito por pen drive. Não posso ver mais nenhuma à frente. Toda a arquitectura de rede por mim concebida foi inútil. Houve choro contido entre muitos. Em dois dias, dormi três horas e meia. Lutei contra o meu sono e exaustão, e ainda conseguia moralizar trinta pessoas, muitas por mim fisicamente levadas para dentro do edifício quase vencidas pelo pesadelo de fazer algo extremamente complexo de forma primitiva.
Geri o caos. Sabem como se sente alguém que gere o caos?
Mas não estive só. Acompanhavam-me homens e mulheres do melhor que já conheci, porque, após algo assim, a magnitude que nos invade, que é a resposta à pergunta de qual é a sensação, não mais nos larga.
É um sentimento só comparável ao duma vitória em épica batalha. Olhamos para quem nos ombreia de uma forma nobre. Foi uma honra travar este combate, lado-a-lado, com tão ilustres jornalistas, quer angolanos, quer portugueses. E demais profissionais. Foi lindo, ver a minha equipa a corresponder de forma tão eficaz, a tão difícil e cruel demanada. Treinei-os bem. No dia seguinte todos nos abraçávamos, ao ver o jornal sair da rotativa. Ninguém se lembrava que se encontravam presentes dois ministros...

O desafio era grande. Fazer por aqui algo equivalente ao ''expresso''. Diz quem me conhece que parecia que tudo na minha vida se conjugara para o abraçar. Apesar de tudo, de não existir um número zero para ter a oportunidade de limpar os vários pormenores menos bons que aconteceram. Os meus objectivos foram cumpridos. Sinto que fui responsável por algo sublime, e que a minha fibra foi determinante para dar todo o apoio a homens e à máquina. E o jornal, está lindo.
Fiz história. Já me encontro nela. Como me posso sentir, então?

Um grande abraço a todos e obrigado por toda a energia.

domingo, 19 de outubro de 2008

aproveitem para esticar as pernas...

...ou fumar um cigarrinho.

Durante uns tempos preciso deste gajo. Por isso, o gajo durante uns tempos não bloga. Sorry, blogocoisa, amigas e amigos que recheiam a mesma. Quando voltar, será para lhe darem os parabéns. Isto, porque a magnitude daquilo onde o gajo se encontra metido é algo do além... Termos de comparação? Ok: julgo que em Portugal a última vez que se fez... foi a mesmo a última. Aqui é a primeira. E sou eu que a faço! Uauuu!!!
Sou capaz, mas as vossas energias positivas e o vosso afecto serão benvindos. Quando a obra se encontrar concluída, tudo o que contribuiu para a mesma pode reclamar um orgulhoso pedaço.

love you all

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

detesto MESMO ter razão

Portugal é o país da Europa onde mais se trabalha e menos se produz. Sabem porquê? Porque se desconhece o segredo do trabalho em equipa. Em Portugal não se trabalha em equipa, trabalha-se em turba. E sabem porquê? Porque se desconhece o segredo da liderança. E sabem qual é? Liderar é a capacidade de transformar a visão em realidade.
Scolari referia-se aos jogadores da selecção, dum país que não era o dele, como... ''os meus meninos''. Como eu o compreendo...
Era um líder.
Contaram-me aqui que quando o Cristiano Ronaldo se referiu ao seu treinador, disse algo do género...''aqui o Carlos...''
Acho que isto explica tudo.

O país está uma merda. E sabem porquê? Porque quem o supostamente lidera não tem um objectivo à dimensão de um povo. Não procura a grandeza. Procura apenas reduzir o défice. É esse o mísero objectivo de José Sócrates. E para o cumprir, ataca um povo que não produz riqueza, metendo a mão no bolso do mesmo tirando-lhe o pouco que tem, quando o seu primordial objectivo deveria ser gerar situações criadoras de riqueza, para depois a colher...
Ouvi alguém afirmar que Portugal poderia estar ali a noite toda e nunca marcaria um golo. Eu também acho, só que não se trata da noite toda, trata-se de gerações inteiras, ad continuum, a tentar marcar um golo.
Com líderes destes, nunca o conseguirão. Scolari não era um melhor técnico, era apenas um melhor homem. Ou pelo menos era isso que transmitia...pois seguiam-no. Sócrates não é seguido, é apenas um mal menor. Será que é isto que merecemos?
Num país sem um projecto, a arrastar-se miserávelmente na cauda de tudo, havia porém algo que ainda lhe dava algum alento. Eram aqueles miúdos. A que alguém devia ter considerado entretanto como ''os seus meninos''. Mas isso não aconteceu.
Não chamem nomes aos rapazes, Não mencionem os seus ordenados milionários. O futebol é um desporto de equipa. E uma equipa tem de ter alguém que a lidere. Que a faça acreditar. Que a informe inequivocamente que é melhor que as outras.

Estou a pensar seriamente em depositar os meus ganhos em qualquer outro sítio que não Portugal, lugar tornado miserável. Lamento que isto vos possa soar demasiado violento, mas para quem realmente o vê de fora... é o que sente.

Detesto MESMO ter razão.

CARREGAR NOS LINKS DA LINHA DE CIMA
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terça-feira, 14 de outubro de 2008

express yourself

Num certo dia a professora chega e pede ao Joãozinho:
- Joãozinho, diga-me um verso em rima!
- Hum... a Madonna é uma cantora que tem pintelhos na c*na. A professora muito indignada repreende-o dizendo:
- JOÃZINHO ISSO NÃO SE DIZ!!
- Pronto stôra! A madonna é uma cantora que tem pintelhos na ameixa
- Joãozinho, isso não rima!
- Ok stôra, então é assim: a Madonna, é uma cantora que tem, pintelhos na ameixa, mas eu não digo c*na, porque a professora não deixa.

domingo, 12 de outubro de 2008

cano dá cana

Uns gajos em Nova Iorque andavam na marosca a roubar fémures, substituindo-os por canos.
Foram de cana...
Do processo mediático despoletado por este acontecimento retive o seguinte: Um corpo humano, vendido em partes, vale tanto como um apartamento no centro de Lisboa.

sábado, 11 de outubro de 2008

sul

Acordo para mais uma sexta-feira. As cortinas do quarto cumprem: ao esbater a claridade, falam dum dia menos luminoso que o que encontro mal as afasto... mentem, porque quero. Ainda meio a dormir, visto uns calções, calço uns nike e vou por aí a desenrolar os phones schnneizer que irão bombar Daft Punk na minha corrente sanguínea e dar o ritmo à minha corrida em Talatona, um futuro Tagus Park daqui, só que umas vinte vezes maior...
Chego a casa trinta encharcados minutos depois e faço quarenta flexões no meu quarto. Lembro-me do Covey: ''Se não conseguires fazer as tuas cinquenta flexões não conseguirás que a tua equipa faça as suas vinte''. No problem, Covey, faço as que quiseres e a minha equipa segue-me até ao inferno, a encher, com um sorriso nos lábios.
E é esse o desempenho da mesma durante mais um dia de trabalho.
Um deles, no princípio, perguntou-me se seria possível irem a Lisboa ter um período de formação, o que no caso dele queria dizer... ver gajas. Respondi-lhe, metálico, que comigo iria ter a melhor formação, com um nível que nunca encontraria em Lisboa. Agora eles próprios recordam a conversa, gratos. Deixa estar, Gajas, há-as por cá. Mas eu não lhes ligo nenhuma, por enquanto. A minha missão é prioritária. Sinto-me como um monje guerreiro. E ficou lá alguém que me espera. Eu continuo também eu à espera, embora me veja por aqui durante muito tempo.

Estou farto de ser europeu.
Uma condição que ganhou um novo significado, para mim.
Um ser urbano, decerto. Culto, sem dúvida. Mas alguém a quem retiraram a natureza. A única que lhe resta é a sua, na qual chafurda. Um ser sem árvores, planícies, bandos de patos selvagens. Resta-lhe apenas o prado seco da sua alma. O meu weblog é disso exemplo...
teria Hegel vivido dias tão intensos como estes meus de agora?

Só a viagem de mota até à Casa me secou a transpiração que mapeava a camisa. Nem o banho, nem o ar condicionado conseguiram travar o suor que a minha corrida me soltou dos poros.
Todos chegam de jipe. Eu chego todos os dias ao trabalho de peito aberto e cabelos colados. Pelo vento.

Sou o último a sair, a uma sexta-feira...Muito trabalho, pois. Sou interrompido, no fim do dia, por dois gajos que entram por ali, no andar de baixo, um deles é o guarda, de kalash carcomida a tiracolo. O outro vem lá procurar trabalho e sente-se aborrecido por ninguém estar lá para o receber ou algo do género, a exibir mau feitio. Com um sorriso amarelo continuo o meu trabalho, até ser interrompido de novo. Desço, sem sorriso algum, com ar de levar gajos e kalashnikovs, tudo à frente. ''Era só para dizer que o assunto está resolvido, chefe. Tudo fixe...''.
Saio. Às seis da tarde em Luanda é Noite. E já passaram duas horas. Está um calor magnífico, esbatido pelo vento que me molha a cara durante a viagem de mota até casa, onde chego, e saio, sessenta minutos depois. Ainda tenho tempo para manter uma conversa com uma amiga especial e dar-me conta no reader pelos títulos dos blogs que longe, muito, muito longe existem gripes e outonos e crises e o raio que parta isso tudo... Caramba, um gajo para se deprimir tem de ir à Europa...aqui é impossível!

Chego à Ilha dos contrastes, a Ilha de Luanda. Topos-de-gama passam numa estrada esburacada, separada por blocos de betão cravados pelo vértice inferior e assim assentes, oferecendo os outros cinco aos pneus que os rasam... Uma voz feminina dentro do carro fala dos professores de ginástica soviéticos enquanto um jipe Lincoln Navigator gigantesco esmaga a estrada que ficou para trás. Putos saem disparados de cruzamentos com as scooters em cavalinho. Estaciona-se o carro num local impensável em Lisboa, onde cabem menos. Aqui o pessoal adapta-se a tudo, e os carros ajeitam-se aos espaços diminutos.
Está muito calor. Mas bom.
O longo estrado de madeira do Chillout, assente na idílica praia, funciona como um espectáculo ao contrário: encontramo-nos no palco e a acção encontra-se à frente, no Oceano repleto de navios em fila interminável. Nunca se viu nada assim. Ficam ali dois meses, cada um, à espera da sua vez de entrar no porto. Um outro está na calha para ser construído, e aquela fila será uma longínqua lembrança. Mais uns quatro anos e Angola fará o mesmo que todos os países anteriormente roubados pelo ocidente estão agora a fazer: a comprá-lo aos pedaços...
São países como este que, mal ou bem, representam o futuro do planeta, agora falido pela lógica da gravata que dos pescoços passou para a economia... A verdade vem sempre ao de cima, e este dinheiro que andava por aí era mentira.

A minha amiga vai descrevendo as características das angolanas que estiveram na europa e as que são de cá, em maneira de exposição de manual de engate a quem chega. Eu sorrio, ele é muito mais bonita que qualquer uma delas, mas proibida. Todas o são, para mim. Não quero saber. Estou cá para trabalhar, gajas nunca me faltaram, nem em Lisboa nem em lado nenhum. Neste momento seria um problema a mais, em troca de momentos de prazer.
Tenho a sorte de poder escolher os meus problemas, vou continuar a gozá-la. É uma sorte impagável e magnífica, esta que vem no pack de renascimento, não vos passa pela cabeça...

Os gajos são uma tristeza. Escolhidos a dedo pelo seu aspecto medíocre de gringos barrigudos de rua de Bangcok.
Mas encontram-se pessoas elegantes. Angolanas sobretudo. É uma vergonha para os estrangeiros presentes, a sua elegância.
E a música é excelente... very becoming com todo o resto. O calor, os sorrisos, o ar livre... Angola é um país ao ar livre. Cheio de espaços convidativos a uma viagem.
Danço. Muito mesmo. Já não me lembrava de dançar assim. Ao observar quem comigo dança recordo-me dum pormenor: será que todos se apercebem que pela forma de dançar se vê como se fornica? Contenho-me um pouco, a sorrir... Vou desvendando segredos, ano após ano, desta poça que chamamos vida.
Todos bebem, menos eu, que mantenho a minha frescura e lucidez. Vou saboreando o calor, a beleza das mulheres, de bela cabeleira gigante que se esfuma em penugem escura, que dançam em contraluz. Olho para o céu estrelado e vejo constelações desconhecidas. Estarei noutro planeta?

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Praia

Pois. E protector solar, por aqui? Pode ser factor 8, que sou moreninho. Embora não tanto como a malta destas quietudes... : )

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Quero beber da tua água...

....Foi o que ouvi. Quem o proferiu foi um dos membros da minha equipa, quando estratégicamente, lhe indiquei o meu adjunto para lhe tirar uma dúvida.
Esta gente quer mesmo aprender.
Cada dia de formação é acompanhado por mim atentamente, enquanto preparo a minha, bem grande, parte da estrutura de um dos maiores órgãos de comunicação social do continete africano.
Intervenho em alturas-chave, quando sinto que existe uma quebra de ritmo devido ao cansaço, ou quando tenho realmente algo a acrescentar.
E estou mesmo satisfeito.
Peguei numa equipa que se encontrava impreparada, abandonada e desmotivada pelos sucessivos atrasos do projecto e consegui transmitir-lhes a minha garra, visão e aquilo que os líderes a brincar temem ceder: conhecimento. Quero que eles saibam tudo. Quero-os bons. E, dia-a-dia, sinto a melhoria. E o entusiasmo, esse, nem falar.
Encontro-me em África, sim. Mas... não se iludam, estive à frente de várias poules, e esta, técnicamente, não fica a dever muito a algumas daí. Mostraram logo qualidades. A grande diferença é que aqui as pessoas comportam-se como a vegetação: querem crescer.
Leio o drama que é ser professor e formador em Portugal... Que diferença... aqui, adultos frequentam aulas do preparatório, e os jovens que estudam vão à escola fazer aquilo que qualquer estudante deveria cumprir: aprender.
''Quero beber da tua água''... Esta é que é a verdadeira sede de conhecimento.
Soube-me bem ouvi-lo, claro, mas julgo que qualquer professor em Portugal ficaria com um sorriso bem maior que o meu...

domingo, 5 de outubro de 2008

almoço de domingo

Rocket-Caramba, este é o primeiro restaurante em que, no menu, leio a lagosta ao preço da picanha...
Pitigrili-A lagosta apanha-se já ali, a picanha apanha-se mais longe...

sábado, 4 de outubro de 2008

o meu almoço de sábado

Uma lagosta e três lavagantes.
Eram à descrição.
Vida dura, a dum expatriado...

indiana jr

Um casal descobre uma revista sado-masoquista escondida no quarto do filho. Diz a mãe:
- O que fazemos ao miúdo?
Resposta do pai:
- Pelos vistos não adianta bater-lhe...

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

zen?

Sou danado. Uma hora à espera para encher o depósito?
Não, se o puder evitar.
E gasto só o equivalente a dois euros e meio por tanque...

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

a minha sala de reuniões

Antes de me sentar, sopro o pó vermelho, antes de pousar o bloco em cima da mesa branca. Quem se senta comigo faz o mesmo à cadeira que arrasta pelo chão encharcado pela chuva nocturna. Eu já o tinha feito... Estremecem o ar os camiões que passam a alguns metros da casa. Carregam toneladas de materiais para as que se controem no fundo da rua.
Por estes dias reuno-me com a minha equipa, e com quem virá, ou não, a fazer parte da mesma. Esqueço-me das palavras que me habitavam dantes, quando tratava de assuntos iguais, talvez porque atrás de com quem falo se erga uma jovem árvore que num breve dia dará mamões graças ao calor que não me incomoda. Agora só me lembro, a custo, de termos, como timeline e interface, coisas que se chamam a coisas que pretendo criar para colocar a andar tudo sobre rodas, em vez de agilizar o processo de produção... Isto faz-me lembrar que tenho que passar logo a seguir na Gráfica, para recolher provas da mais moderna máquina de impressão do continente... Sou interrompido pela brutal carga de decibéis do gerador que acorda, mas prefiro este rugir ao ganido das ups da sala ao lado da Arte a queixarem-se da contínua falta da voltagem que as faz felizes... E com os computadores a ligarem de desligarem continuamente numa dança automática do logotipo do Windows e de aparições de DOS branco em brilhante tela negra Hewlett-Packard. Mas não temo. Sei que no dia tudo estará afinado e sem falhas. É o que sempre sucede... Um pássaro canta, a poucos metros, uma melodia por mim desconhecida. Quem fala comigo sorri optimismo...
...É assim, uma sala de reuniões num país que passa, de bebé a adulto, em meses...

terça-feira, 30 de setembro de 2008

!arghx!#@crrr!!/!?!@#grrr"%!!!

O meu vinha dentro da bagagem de cabine... ficou no controlo do aeroporto.
Tentem encontrar gel de cabelo num hipermercado em Luanda... Terroristas dum raio...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

horário de jogo

O futebol, em Portugal, é um jogo que se pratica
entre as oito da noite e as seis da manhã.
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domingo, 28 de setembro de 2008

zen

Sou impaciente. Não de natureza, mas de convicção. Mal chego, tenho que ser atendido. Por um motivo: porque tem de ser assim. Porque as coisas estão más, e é obrigatório servir melhor que o parceiro. E, servir melhor implica rapidez, eficácia, inovação... e surpresa. Certo?
Pois é. Tudo isto...mas na Europa.
Em África esperámos uma hora na bomba, para encher o Jinny de gasolina. E ontem à noite não havia... muitos dormiram no carro à espera...
Da próxima vez, em Portugal, que tiver que esperar mais que três minutos em qualquer lado, vou sorrir, em vez de exibir o tal ar rottweiler...

sábado, 27 de setembro de 2008

meus ricos gatinhos...

Isto foi apanhado a tentar entrar num condomínio, por aqui...

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O Futuro

Imaginem acordar num sítio onde a angústia mais que certa do dia seguinte é substituída pelo significado mais luminoso da palavra Futuro...
Bem, é onde eu tenho despertado, nos últimos dois dias.
Cheguei há três noites atrás, e é, de facto uma alegria que qualquer um consideraria indescritível, mas que é propósito deste texto descrever o melhor possível, a maravilhosa realidade de um país em que todo o tecido humano se conjuga para construir um futuro próspero, abundante e generoso a uma velocidade vertiginosa.
É uma sensação única, fugir dum lugar em que o desalento, desespero e o medo do dia de amanhã constituem o amargo tempero dos dias cinzentos e mergulhar na vertigem do optimismo de outro que encara o futuro com o mais radioso sorriso...

Não... não morri e não acordei no paraíso.

Encontro-me num país africano, com todas as suas características vicissitudes, e mal cheguei, nos primeiros minutos de trabalho, começaram a surgir os primeiros problemas a resolver, por aqui. Mas (e com que satisfação escrevo esta conjunção) por mim, tudo bem... melhor, tudo óptimo! Foi para isso que vim. Para fazer parte do conjunto de soluções que levarão Angola, talvez o país mais promissor do continente africano, a um patamar elevado entre todas as economias e sociedades deste planeta.
É único. Julgo que nunca senti nada igual. Disfrutar da emoção de saborear o verdadeiro significado das palavras esperança, optimismo e futuro... até me esqueço que escrevo num pc...

Embora um dos mais caros portáteis do mundo, este, o que me foi adjudicado...

sábado, 20 de setembro de 2008

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

patine

Não gostam da velhice?
Amo-a, vou morrer de saudades dela.
Quando tinha doze anos, em África, existiam coisas cuja falta me pesava: a chuva das noites de Natal na Baixa, colorida e iluminada, e o ruído dos autocarros verdes de dois andares ao passarem grandes e desajeitados no granito molhado.
Mas, sobretudo, morria de saudades da velhice das casas e paredes de Lisboa. Sonhava com o dia em que a iria afagar com os olhos...
Adoro velhos bairros, onde se entra em lojas perdidas no amarelo dos calendários, em que nada foi vendido e tudo por nós espera, protegido por uma fina farinha de anos... É assim, longe da música, que encontro a beleza do tempo.

A minha casa é velha.
Antiga? Não. É velha... mesmo.

É a casa dos meus sonhos.
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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

gatos...

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Tenho um gato que gosta quase tanto disto......como o dono.

Ivan!... Pira-te!...

E lá vai ele com cara de I'll Be Back...Onze segundos depois reaparece e recomeça as tentativas de se apropriar daquele aconchego... Vence pela insistência e pelo humor da coisa, e conquista, repatanado, o seu novo e fofo sofá...

terça-feira, 16 de setembro de 2008

a chama

A longínqua amizade é uma pequena, brilhante e sempre viva chama-piloto, alimentada pela saudade, até à hora de acender o imenso calor dos afectos.

style // charles bukowski

Style is the answer to everything.
Fresh way to approach a dull or dangerous day.
To do a dull thing with style is preferable to doing a dangerous thing without style.
To do a dangerous thing with style, is what I call art.
Bullfighting can be an art.
Boxing can be an art.
Loving can be an art.
Opening a can of sardines can be an art.
Not many have style.
Not many can keep style.
I have seen dogs with more style than men.
Although not many dogs have style.
Cats have it with abundance.

When Hemingway put his brains to the wall with a shotgun, that was style.
For sometimes people give you style.
Joan of Arc had style.
John the Baptist.
Jesus.
Socrates.
Caesar.
García Lorca.
I have met men in jail with style.
I have met more men in jail with style than men out of jail.
Style is a difference, a way of doing, a way of being done.
Six herons standing quietly in a pool of water, or you, walking
out of the bathroom without seeing me.
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domingo, 14 de setembro de 2008

coisas destas... acerca destas coisas

Hoje de manhã, na cozinha, enquanto espalhava manteiga no bagel : "hum, um donut com rigor mortis"...

Vou sentir a falta de ouvir coisas destas... acerca destas coisas...

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A Bela & O Monstro

Um gajo com dinheiro e uma gaja sem escrúpulos? Não... um homem com um carácter fascinante e uma mulher de uma sensibilidade extrema...

sábado, 13 de setembro de 2008

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

inteligência zero...

...é considerar uma guerra... santa.

the usual dinamic duo...

Numa noite de chuva, dois carros batem. Um de um advogado e outro de um médico. Ao sair do seu, o médico, preocupado, dirige-se ao do advogado e pergunta-lhe se está ferido, examina-o sumariamente e constata não haver nada de grave. Só então os dois passam a verificar o estado dos carros e como se deu a batida. Chegam à conclusão de que não havia como escapar do acidente: estrada molhada, escura e mal sinalizada. Como, todavia, o advogado já tinha ligado para a GNR, resolveram ficar à espera enquanto a viatura não chegava, para avisar os guardas que cada um ia assumir seus prejuízos. Conversa vai, conversa vem, o advogado vai ficando íntimo do médico e até lhe oferece uísque. O médico aceita, bebe três goles, bem longos, e pergunta:
- E você, amigo, não vai beber?

O advogado responde, com um sorriso:
- Só depois da polícia chegar.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

leis das coisas simples

A minha tentativa de contínua compreensão das leis das coisas simples dá nisto: há três meses que corto o meu próprio cabelo. Ninguém nota, e estou satisfeito. Atenção... devem existir poucos homens tão zelosos da sua imagem como eu.
Muito poucos, mesmo.

microhamburguer

Almôndega crua e um piparote.
Alcaparra, on top...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

a loucura

É maluco-e-dá-dentadas-nas-maminhas-das-criadas

Há semanas participei num acontecimento cultural bizarro. Uma... tertúlia. Numa galeria de arte, com mesas, cadeiras e copos, reuniram um músico de renome que iria apresentar àquela plateia o seu livro de crónicas, plus o artista plástico cujas obras se encontravam por lá expostas, e dois ou três intelectuais cuja função ali era a de apresentar cada um e a sua obra.
No meio da plateia para ali sentada existia ainda uma poetisa e mais alguns ilustres conhecidos e desconhecidos.
A cada exposição dos apresentadores a palavra "arte" saía disparada a cada dez segundos, e a palavra "loucura" a cada minuto. Bem, no caso do discurso de interrupção permanente do dono da galeria, era um ex aequo paritário. Tratava-se de um homem de ar alucinado... um artista. Não o era, mas pretendia o estatuto e assim adoptava o estereótipo do artista que eu julgava afastado já do imaginário público. Envergava-o. Numa pose ascético-patética, afastando com as costas da mão os seus fartos cabelos cor de prata, do alto do seu metro e sessenta e cinco, discursou uma mensagem de abnegação, de despojamento, que era o espírito com o qual abraçava a missão de explorar aquele espaço. Não lhe interessava, de todo, o lucro, porque o seu único e grandioso objectivo era o de congregar, além dos ilustres que se sentavam cercados pelas telas e pequenas esculturas, artistas de renome como os que estavam na mesa nobre e fazer acontecer... cultura.
Ele próprio os apresentou e enalteceu as suas virtudes como artistas... e loucos.
Não foi o único. Nem todos os que tomaram a palavra eram perfeitos idiotas. Um famoso colunista e um conhecido professor universitário mesmo assim acasalaram, de novo, perante nós, as palavras "arte" e "loucura".

Aquela sensação de me encontrar entre medievos... veio de novo.
Nenhum, felizmente, era crítico de arte, mas a moinha que me transportou para o século XIII nasceu do facto daqueles homens, num plano elevado, traduzirem a impressão que o vulgar cidadão possui do que o artista faz e que tipo de profissional ele é: um louco, indisciplinado, sem objectivos, alucinado, inconsequente e anti-social.
Nada podia ser mais falso e simultaneamente mais emblemático do atraso em que se encontra o estudo de muita coisa relacionada com o homem. Com um ênfase preocupante para o estudo e definição da inteligência em si.
O artista deve ser, de todos os profissionais, o que abraçou o maior desafio no mundo do trabalho. Refiro-me aos verdadeiros artistas, aqueles que buscam e desenvolvem o seu próprio percurso, os "originais"... ficando de fora desta reflexão os que exploram as fórmulas criadas por outros, como por exemplo aqueles que no século vinte e um ainda pintam quadros com uma linguagem impressionista (e têm mercado, pois só agora muitos começaram a gostar do impressionismo, que data do século dezanove).
Vou usar uma, pouco frequente por, aqui analogia:
Um engenheiro resolve problemas, como qualquer profissional. No caso da travessia dum rio, é-lhe fornecido o problema - atravessar o rio - e o seu trabalho é fornecer a solução - uma ponte que respeite todas as condicionantes agregadas, como prazos, custos, qualidade e outros.
No caso do artista, ele cria o problema, as condicionantes e a solução. Ou melhor, ele detecta o problema que ninguém vê e resolve-o. Cria os seus próprios rios, as suas próprias pontes, e as condicionantes inerentes a tudo isto.
E, neste processo, encontra-se inteiramente só.
Tomemos como exemplo, nos referidos impressionistas, Monet. Tendo-se apercebido que a sua contemporânea fotografia cumpria melhor a missão da arte até essa altura (problema...e não pequeno: dar um sentido à arte... à pintura ), descobriu novos caminhos ao começar a exploração da mistura de cores na tela e não na paleta segundo os princípios da emergente teoria científica da cor, saindo do atelier para os campos, para captar numa difícil impressão pessoal da luz. Impressão essa que transmitia à tela.
Este tipo de atitude profissional requer uma disciplina brutal. É o artista que estabelece o seu próprio horário de actividade, as suas metas, os seus limites, é ele que cria o seu próprio purgatório laboral... E tudo isto num nevoeiro de solidão. Encontra-se só na demanda dos seus objectivos pois só a obra acabada se explica, se resume e pode, só aí, ser alvo de análise.
Esta solidão condiciona, na maior parte das vezes, um vida afectiva nómada e insustentada. E não só a solidão. O factor que determina o tipo de raciocínio que um artista exerce, nem todos e todas o possuem e raro é o homem que não partilha os seus dias em conversa com a sua companhia. E ouvidos capazes de entender a loucura?
Mas afinal, o que é a loucura? Porque se considera o artista um ser bizarro? Muitos deles vendem a sua loucura mais cara que automóveis topo-de-gama, e alguns jactos... de vários lugares. Então... não são loucos, pois não?
Não. Não são. Possuem um tipo de inteligência que se encontra muito mal estudado...
Após milhares de anos de civilização, é que alguém muito timidamente apareceu a abordar o estudo da inteligência. O psicólogo inglês Howard Gardner, professor da escola de educação de Harvard e da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston, apresentou a sua Teoria da Inteligência, há apenas quinze anos: Para Gardner, existem cinco tipos de inteligência usados por nossa mente para enfrentar o mundo. A inteligência espacial (que envolve a capacidade de ler mapas e de encontrar a saída de um labirinto), a inteligência corporal cinestésica, a inteligência interpessoal e intrapessoal e a... inteligência artística. A inteligência, à falta de melhor, chamada de artística é a que se manifesta na criação e reflexão da arte. Eu chamar-lhe-ía sintética pois refere-se a uma reinterpretação e reconstrução da realidade apercebida a outros níveis, cognitivo e reflectivo.
Quem ganha a vida usando este tipo de inteligência, não poderá nunca chegar a casa e falar sobre o serviço. Muito poucos o perceberão. A solidão será sempre uma constante. Poderá ter sorte, se conseguir reunir dois factores frente a si: possuir uma capacidade de comunicação verbal tradutora do seu percurso e encontrar alguém sensível à mesma... duas agulhas num palheiro.
O artista tem de abraçar uma existência quase missionária, de sacrifício. E ao prosseguir os seus objectivos, o horário de trabalho será de vinte e quatro horas, sem férias. Não trabalha com os braços, ou com as mãos. É com a mente.
Todos partilhamos um imaginário de figuras de artistas sofridos, de existências dramáticas, aventureiras, incompreendidos... loucos. Não confundam os que, por uma questão de imagem usam o look à artista. Esses são os artífices das artes decorativas.
Os artistas autênticos não são loucos. São apenas seres que abraçaram uma profissão que os consome como a cera duma vela, porque o tipo de reflexão que para ela usam ainda não está estudado de forma a os acondicionar no resto de tudo.
São seres humanos que se sacrificam, para nós todos podermos ter emoções estéticas renovadas, uma geração após outra.
E são profissionais a sério.

FOTO: THE MAD HATTER’S TEA CUP DE MICHAEL GOODWARD. WEBLOG AQUI.
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terça-feira, 9 de setembro de 2008

proferir, a sorrir

Não gosto do meu nome, lido ou dito por extenso, salvo em raras excepções... Mas agradam-me as suas iniciais. Muitas vezes as utilizo, em vez dele.
Quem me conhece daqui, pensa que gosto de escrever. Gosto de escrever sim, dando uso a um tipo de raciocínio que irei referir no post seguinte, mas não me agrada, de todo, a linguagem escrita quando é usada por mim para comunicar apenas com uma pessoa.
Não lhe dando muito uso, gasto fortunas em telemóvel...
JCRB são as iniciais do meu nome. Profissionalmente, uso as do meio. Na tropa era JB...
Não gosto do meu nome, lido ou dito por extenso, salvo em raras excepções: soube-me bem hoje ouvi-lo, após alguma espera no atendimento para as vacinas necessárias para uma viagem que farei daqui a dias em direcção aos trópicos.
Também se comprova que sou alguém que faz brilhar o dia a quem me atende, se do sexo feminino. As senhoras que comunicaram comigo por ali devem ter mantido durante algum tempo o sorriso com o qual me brindaram quando com um sonoro e amistoso bom dia me despedi.
Cada nome devia ser proferido a sorrir...

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

todos iguais...

ESTE TAMBÉM QUINOU...
...mas uns mais iguais que outros, segundo Hollywood.
É já o terceiro filme, que vejo, em que vários encetam uma operação de salvamento arriscada para salvar um. O primeiro foi o Saving Private Ryan. O segundo foi o King Kong, em que toda a tripulação dum navio enfrenta uma selva recheada de dinossauros e um macaco de três andares, e o terceiro, vi-o ontem: Jurassic Park III, em que um grupo tenta salvar um rapaz duma ilha infestada de dinossauros. O denominador comum de todos os estes filmes é que os salvadores são muitos no princípio e, no desenrolar da película, nazis, dinossauros, penhascos, insectos e macacões vão dando cabo de uma forma atroz de... todos os salvadores. No caso de Saving Private Ryan... para aí uns vinte. No King Kong outros tantos e uns quatro ou cinco no Jurassic Park III (o grupo de salvamento era mirim). Contudo, apesar de todo este massacre, os filmes acabam bem. E porquê? Porque cada um dos sãos e salvos foi sobrevalorizado em relação aos que se perderam, na chuva de projécteis de 20 mm dos SS, ou na garganta dum Tiranossauros Rex. Uns eram a carne para canhão de todos os dias e os outros as estrelas do costume.
Caramba, afinal os filmes não são assim tão diferentes da realidade... Alguém me empresta duzentos e cinquenta mil euros para uma matrícula? Pode ser igual à do outro... também me chamo CR e 7 é o meu número favorito...

domingo, 7 de setembro de 2008

Quatro Patinhos

Olha! Quatro patinhos!... Possuo dois relógios de pulso, e um deles é digital... Hum? Eu sei... mas é bonito, descansem... Ok... A maior parte das vezes que o meu olhar é atraído por ele, calha, com exactidão, às 22h22. Achava graça à coincidência, que verificava acontecer em todos os outros por onde passava, na rua... no do carro e moto, inclusive. Chamava ao grupo 2222... Quatro Patinhos. Outra capicua com a qual tropeço amiúde é a das 11h11. Por isso, quando dei com este artigo da Cosmopolitan francesa, em casa de amigos, há dois dias atrás, achei-o engraçadíssimo e resolvi partilhar a coisa convosco.
E vocês, qual é o vosso número?...


"Chaque fois que vous levez l'oeil sur une horloge électronique - celle du magnétoscope par exemple - vous voyez apparaître les mêmes nombres : 11h11 ou bien 0707. Que se passe-t-il ? Les nombres affichés avec insistance reflètent un état d'âme. D'après Robert Hopcke, directeur du Centre d'études symboliques d'inspiration jungienne, il s'agit d'une synchronie de confirmation : on lit sur l'horologe la confirmation symbolique d'un sentiment qu'on éprouve. Traductions :

0000»Absence, sacrifice, attente, silence mental, préparation.

0101»Solitude, isolement, moi, principe paternel.

0202»Dualité, antagonisme, complémentarité, principe maternel.

0303»Pensée,idée, verbe, volonté, communication.

0404»Forme, force, terre, cycles naturels, gouvernement, pouvoir.

0505»Vie, création, transmission, activité, vitalité, magnétisme.

0606»Initiation, harmonie, loyauté, sagesse, choix.

0707»Prise de conscience, association, évolution, spiritualité.

0808»Libération, loi, discipline, éthique, conscience.

0909»Compléxité, vie intérieure, humanisme, recherches.

1010»Confiance en soi, réalisations, fortune et élévation, travail.

1111»Charisme, aspect visionnaire, nervosité, soif de pouvoir, rébellion.

1212»Clairvoyance, épreuves évolutives, karma, renoncement volontaire.

1313»Mort et résurrection, mutation cyclique, goût du changement.

1414»Mouvement, progrès, instabilité, involution.

1515»Passion, sexualité, magnétisme, volonté, régression.

1616»Fierté, besoin de solitude, purification, orgueil, isolement.

1717»Volonté de dépassement, force créatrice, imagination.

1818»Amour supérieur, réceptivité, magie, illusion.

1919»Lumière universelle, pensée transcendente, énergie fécondante.

2020»Rapidité, besoin de raison, alternance rapide de hauts et de bas.

2121»Succès final, sagesse divine, synthèse, couronnement.

2222»Prestige et renommée, sens de la mission, génie.

2323»Agilité, don pour les communications, protection, héritage."

sábado, 6 de setembro de 2008

1 : O "à propos" da Su...

Directamente da Madeira, por e-mail, o "à propos"da Su...

Um pai judeu, com a melhor das intenções, enviou o seu filho para o colégio mais caro da comunidade Judia. Apesar das suas intenções, Samuel não ligava puto às aulas.

Notas do primeiro mês:
Matemática 2
Geografia 3.5
Historia 1.7
Literatura 2
Comportamento 0

Estas espantosas classificações se repetíam-se de mês a mês, até que o pai se cansou:
- Samuel ouve bem o que te vou dizer, se no próximo mês as tuas notas e o teu comportamento não melhorarem, vou-te mandar estudar para um colégio católico.
No mês seguinte as notas do Samuel foram uma tragédia, só comparável ao naufrágio do Titanic e o pai cumpriu com a sua palavra. Através de um rabino próximo da sua familia, contactou com um bispo que lhe recomendou um bom Colegio Franciscano para o qual Samuel foi enviado.

Notas do primeiro mês:
Matemáticas 18
Geografia 16
Historia 18
Literatura 20
Comportamento 20

Notas do segundo mês:
Matemáticas 20
Geografia 18
Historia 20
Literatura 20
Comportamento 20.

O pai surpreendido perguntou-lhe:
- Samuel, O que te aconteceu para ires tão bem na escola?
Como é que se deu este milagre?
- Não sei papá. Apresentaram-me todos os colegas e a todos os professores e logo de tarde fomos a uma igreja.
Quando entrei, vi um homem cruxificado, com pregos nas mãos e nos pés, com cara de ter sofrido muito e todo ensanguentado.
Perguntei, quem é Ele? E respondeu-me um aluno dos cursos superiores:
"Ele era um judeu como tu". Então disse para mim:
F**-SE ... aqui temos que estudar, que estes gajos não são para brincadeiras!!!

season

Abertura oficial da estação de enchimento da pele até ao próximo Verão.
Tu, que afirmas que o teu corpo é o teu templo, não te esqueças que os ginásios estão abertos.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

playground

No recreio: - O meu pai é melhor que o teu!
Responde o outro: - Não é nada! O meu é melhor!
- Está bem, mas... a minha mãe é melhor que a tua!
- Ok... o meu pai também acha...

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

1 : O Sofá : Conclusão

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Nunca me custou tanto começar a escrita de algo...
Pudera... como o faço? Como declaro? Como informo pessoas pelas quais tenho apreço e amizade, que as enganei, que as burlei, que o texto que publiquei na segunda-feira, comprido como tudo, e que muitas emocionou... é uma meticulosa fraude?
É uma fraude. Um embuste. Aquele deus que sentei no sofá e foi causa de emoção e crédito...não existe. Não acredito no deus que vos vendi. Nem numa sílaba, nem numa letra daquilo. Não acredito em divindade alguma.
Sei que muitos de vós dirão: "em alturas de maior dificuldade, acreditas, decerto. Como todos os que dizem que não..." Já as tive, e para perceberem o quão difíceis eram, na altura o que sentia, para além da dor, era o profundo horror de não acreditar, de saber que estava só. E a solidão perante a adversidade é a pior de todas, mas é também a que mais fortalece quem vivo fica...
Não acredito numa só linha daquele texto que até a mim me emocionou. E emocionei-me, a mim e outros, porque coloquei lá todos os ingredientes que sabia necessários para tal. Por exemplo, sou pai, e nessa condição sei onde me dói. E ao reler certas passagens, eu mesmo senti comoção.
Um texto maldito. Porquê?
Sou um homem do mundo, vivido, bom ouvinte e bom interlocutor, e bom amigo, embora cultivando uma independência invulgar. Até chegar aqui à chamada blogosfera, as dores das pessoas que gosto, por mim sentidas pela empatia presente no profundo afecto que lhes devo, partilhava-as em privado. Chego aqui e a coisa muda de figura. Deparo com uma multidão de desconhecidos, e, dia após dia vou desenvolvendo afectos, alimentados pelos desabafos diários de todos, neste âmbito. As pessoas dão-se a conhecer a si, aos seus anseios e às suas dores, às suas dúvidas...
...E angústias. Das quais, uma em particular à qual fui sensível: a angústia de ser ou não ser aceite... a de não encaixar no figurino. São pessoas boas, as que a manifestam, segundo uma escala de valores humanista. A maior parte que refiro, apesar das coisinhas que todos nós temos, são bons seres humanos.
E muitos sofrem, porque o sistema de valores que impera, imaturo, não acompanhou a evolução dos tempos, e sobretudo, tem base num regulamento religioso com origens na idade média, tendo evoluído muito pouco desde aí.
Muitos dirão: "ah, eu quero lá saber, eu faço a vida que quero e ninguém me chateia...". Vocês sabem que não é bem assim. Quem realmente faz a vida que quer, na sociedade ocidental, incorre no conceito de pecado social. Vive em pecado, e sente isso todos os dias. Nem é preciso nada de espectacular, como exemplo. Basta chegar à tal idade e ainda se encontrar por casar. Tenho uma amiga que, por todos os motivos e a mais alguns, representa uma vida de casada na empresa onde trabalha... As pessoas são pressionadas para se encaixarem no figurino... É que nem direito a guetto existe para os que se estão nas tintas para uma moral de cariz religioso, pois têm de levar com ela todos os dias!
E o que condiciona o figurino? Criaturas como a que criei, com a diferença de o terem sido criadas por outros.
Atentem bem no deus que sentei para ali, segundo o Gabriel que nem abriu o bico, comprado pelos valores divinos, como meio mundo. Pois é... houve quem referisse a corrupção, mas não a do dinheiro. Eram pequenas coisas, como o Bourbon secreto que o não devia ser, E uma tradição de ilustres rabos sentados naquele sofá, todos poderosos, que pagavam a peso de ouro um dos prazeres mais iníquos de quem tiraniza: ouvir-se a si mesmo perante alguém ilustre e capaz.
Desta feita uma criatura supostamente divina, reconhecida por todos como o pai do andar de cima, o ideal, para controlar a criançada rebelde. Gabriel é corrupto, sim, porque foi pago para fazer só parte do seu trabalho, e não concluir a restante. Porque se o fizesse, diagosticaria uma patologia grave com contornos infanticidas. O velho, sendo um pai ausente, ainda assim cultiva uma insidiosa "doce expectativa de recolha do que de maravilhoso daí poderia resultar". Ora um pai que tente isso com qualquer filho...
Um pai tem de dar a cara e acompanhar e, sobretudo, não castiga com milhares de anos de ferro e fogo por um pecado. Este velho nunca perdoou... só o seu filho maior se mostrou capaz de tal, e ele próprio não foi devidamente amado. O velho que descrevi não foi nunca capaz de amores tranquilos. É um homem de paixões doentias, de fobias, de exércitos e de sangues... quantas vezes, no texto lestes a palavra? É o deus ideal para alguém tomar como aliado num exercício de domínio. Um deus tirano, um deus que legitima a tirania.
Gott Mit Uns. Deus connosco. Todos os tiranos o reclamam, como aliado. Quer os que gravavam a frase nas fivelas dos cintos dos seus soldados e que cujo objectivo era um reich de mil anos ou os outros que ainda querem um reich de mais dois mil...
Em Nome De Deus, em pleno século XXI, apedreja-se até à morte e explodem-se comboios, autocarros, prédios e aviões. Mas nada disto é tão presente nas nossas vidas como o modelo que nos é imposto, a obrigatória forma de viver a que as religiões a todos nos obrigam, baseadas no pressuposto desejo de um deus que o determina.
Escrevi "O Sofá" com o intuito de demonstrar a facilidade com que todos nós podemos ser enganados. Criei um falso deus, ainda assim credível, e fi-lo em três horas, tendo-o apresentado depois. Uma religião qualquer tem séculos à sua disposição.
O que é curioso é que o deus que criei, um maníaco, é aceite. Todos os deuses o são. Houve vários, durante a História. Raro era o que não fosse violento e cruel.
Sentei-o num sofá.
Outros, mergulhados em peças de mobiliário análogas, cobertos pela penumbra apesar do sol radioso que molha as ruas, para dominar as nossas vidas invocam o apoio de velhos assim...

Tenho inveja de duas coisas. A primeira é de quem teve uma infância maravilhosa. E a segunda é de quem tem um Deus maravilhoso. Gostava de contar com essas realidades na minha vida. Tanto para uma, como para outra... é tarde.

Não foi intuito meu negar o Divino... Aquele deus, é que não. Liberdade religiosa também se manifesta no direito de não acreditar. Preceitos não devem ser considerados valores.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

1 : O Sofá : Pacto

Antes de concluir a comunicação relativa ao tópico "O Sofá" necessito de estabelecer convosco um pacto de não-agressão: prometem que não me odeiam... declaradamente? E, se me odiarem (em segredo, segundo o pacto)... não lerei por aqui nenhum tipo de agressão escrita?... Lembro-vos que anunciei, por altura da sua publicação, que existia truque envolvido... 
...Eu avisei... 
Fico à espera...

terça-feira, 2 de setembro de 2008

os epílogos

Gajo importante é o medíocre que toma conta da excelência quando o excelente acaba com a mediocridade

SÓ PARA OS QUE GOSTAM DA MÚSICA, EIS A MINHA FACETA SERVIÇO PÚBLICO
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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

1 : O Sofá

Setembro. Dia um. O silêncio das seis da manhã era o palco para o sussuro das folhas das árvores perdidas em ensonadas carícias, excitadas pela brisa mal desperta. O afastado bru dos motores da rua do quarteirão depois, sonora nos outros dias daquele consultório de Psicologia Clínica, ainda não se fazia sentir. O tic ritmado do relógio de mesa, um Buben & Zörweg herdado do pai Penha Navarro, psiquiatra judeu de terceira geração, ecoava desajustado no silêncio das madeiras e dos livros. Aquele tic não pertencia aquela hora, mas sim às noites no gabinete-consultório de Gabriel Penha Navarro, bem como o do gelo que batia no copo de Jack Daniels, secreto por ser Bourbon e não o malte dos homens sérios...
Esfregou ligeiramente o olho esquerdo, sem saber bem o que fazer por naqueles momentos enquanto esperava o misterioso alguém que lhe reclamou o dia.
A única referência que tivera fora a do homem de beleza seráfica de trinta e poucos anos que lhe apareceu por lá que com um breve sorriso lhe disse duas coisas: "também me chamo Gabriel" e "duzentos e cinquenta mil euros" e o fez sentir algo, inquietante, que depois se evaporou da sua memória.
Mal o louro saiu, consultou a sua conta no Dell e verificou a transferência prometida, de cem mil.
A partir desse dia, até aquela manhã, um ou dois comprimidos de Olcadil passaram a fazer parte da sua dieta e não conseguiu nenhuma erecção de relevo.
Seria mais um problema a resolver, a apreensão de Beatriz...

Então, no meio de todos os silêncios, o Psicólogo sentiu o nervosismo desvanecer-se como o esfarrapar de uma pequena nuvem.
Por instinto, dirigiu-se, calmo, à porta, atravessando a sombra da recepção. Ao abri-la, encontrou um homem idoso nas escadas. Sentiu ridículo o impulso de levar a mão ao bolso em busca de moedas, mas o seu olhar rendeu-se ao sólido porte, à curta barba branca e às poucas rugas diluidas numa pele muito clara, punctuada por dois inexpressivos olhos cinzentos... duas pequenas gotas derramadas de mercúrio. Viu-o passar por si a trespassar o espaço até ao seu gabinte, numa flutuante sombra da cor do fato cinzento, e seguiu-o, baixando os olhos no caminho sem saber porquê.
Foi com uma calma inusitada que indicou, ao velho, o sofá.
Era uma peça de mobiliário muito antiga. Tinha sido pertença última, também, de Penha Navarro pai, e, segundo o mesmo, chefes de estado e mesmo um rei tinham conhecido o frio macio do seu couro velho. Era um sofá curto, e quem lá se sentasse, não depositava nele meramente o corpo. Envergava-o.
Não conseguia dar uma idade ao velho ali sentado. O sofá encontrava-se mergulhado numa inexplicável penumbra: adivinhava-se a glória do sol, lá fora.
Gabriel Sorriu. O seu confiante sorriso era um dos seu trunfos, naquele gabinete. Usava-o para quebrar o gelo, fazer aparecer um golpe de tosse... uma palavra.
E o velho falou.
- Estou aqui porque se passou demasiado tempo desde que o que me aflige entrou nos meus dias. E ainda não saiu.
O psicólogo ia intervir, mas o velho continuou.
- Sou pai, e não estou a lidar muito bem com isto.
Gabriel tinha ouvido ali muita coisa, mas aquele homem tinha uma voz de oitenta anos. Pai? Que idade teria o filho? O velho prosseguiu.
- Não lhe interessa nem a minha idade, nem a do meu filho, ou filhos. Eu sei que para si seria útil sabê-lo, mas vai ter de lidar com uma realidade mais imprecisa que o habitual. Apenas lhe afirmo que eu sou um velho, e por isso decidi ter um último filho, que é um homem na força da idade.
- Porque afirma que é um velho?- Começou Gabriel.
- Porque cheguei a uma altura em que achei que teria que dar continuação à minha obra por outrém, passar a pasta. E de facto, sinto-me cansado. Sentia-me cansado, e agora não melhorou. Piorou até, porque a angústia de nada poder fazer, chegou a um nível insuportável.
Angústia, afinal. Gabriel sentia-se aliviado. Aquele velho, pela sua idade, seria um material de trabalho hostil. Qualquer problema sério nas fundações de uma casa velha normalmente deixava-se estar... Mas uma mera angústia... afinal seria fácil, talvez. E o velho continuava...
- Trata-se do seguinte: a minha obra e a do meu filho, encontram-se registadas em dois livros reunidos num fólio. O primeiro livro refere a minha obra, exclusivamente. É extensa e foi drenante, Esgotou-me. Entreguei-me a ela, e a ela só.
A minha obra refere-se à criação de toda uma nova realidade, de um novo mundo recheado de personagens e seres magníficos. Um novo céu, novos mares e novas estrelas e planetas, que cuidadosamente afastei de um... que elegi, como um pequeno jardim.
O velho olhou para a janela e os seus olhos brilharam, como que a projectar uma nuvem de memória que atravessava a sala e escorria através do vidro subindo através do fru das folhas dos plátanos em direcção ao cru cião do céu da manhã...
- Fiz tudo com muito amor, e com uma paixão desmedida. Entre todos os seres elegi um que se me assemelhava e dotei-o de uma capacidade, superior à dos outros, de compreensão de todo o resto da minha obra. E fiquei numa doce expectativa de recolha do que de maravilhoso daí poderia resultar.
Nesta altura Gabriel começava a sentir-se esmagado pelo ar da sala. Dir-se-ía que mergulhara, sem se dar conta, num lago de ar denso dum outro planeta. As cores começaram a perder valor tonal e a sala começou a metalizar-se, aproximando o seu registo cromático do dos olhos do velho, que o observava.
- Doutor Gabriel, necessito da sua atenção.
Naquele momento, vinte a cinco anos de ascendente profissional sobre quem tinha entrado naquela sala terminaram com a frase daquele velho. Gabriel sentia-se menino sentado no colo do seu avô, enquanto o ancião Penha Navarro recordava a sua fuga através da Europa, ainda jovem, de homens que estremeciam os soalhos quando os pisavam e que ostentavam nas fivelas dos cintos polidos, a inscrição
Gott Mit Uns... E o velho prosseguia, apesar de todas as metamorfoses.
- Esperava algo de maravilhoso da minha criação, mas o resultado... Nem eu nunca imaginaria algo assim. A criatura a quem transmiti todas as capacidades, feita à minha imagem, revelou-se capaz das piores coisas. E dentro das piores, a pior de todas: uma capacidade indómita de se odiar a si mesmo. E como o alvo do seu ódio era a sua imagem, era a mim que ele era dirigido, aquele ódio profundo que não demorou muito a se transformar num banho do líquido vital que lhes concedi... num banho de sangue.
O velho fez uma pausa. Parecia abalado por algum tipo de comoção, pela primeira vez naquela sala. Tudo aquilo era para além de estranho, contudo o psicólogo sentia uma familiaridade inexplicável com o relato. E sem explicação foi também o há-vontade presente na intervenção de Gabriel requerida pela pausa...
- Isso não se encontrava nos seus planos. Abalou-o muito. Tanto que o mudou, certamente. Quer falar sobre isso?
- Sim. Mudou-me. Também eu me transformei. A criatura que criei à minha imagem, contribuiu para mudar a mesma. Após o choque da desilusão tornei-me irascível. E não chegou, continuaram a fazer pior e a desafiar o meu poder paternal. Daí a implacável foi um passo. Transformei-me em algo frio, metódico na destruição selectiva. Todos os que me ajudaram na criação duma maravilhosa realidade, eles próprios minha criação, ataviaram-se sob as minhas ordens com trajos de guerra e espadas de fogo. Metálicos, de obreiros passaram a soldados do mais formidável dos exércitos. E tal era forte a chama do ódio que ardia no mundo que criei, que passaram séculos a matar, queimar, afogar e assolar. Destruíram cidades. Eu mesmo afoguei o mundo, cobri-o de água até ao topo da mais alta das montanhas, e mesmo assim, o ódio presente na semente dos meus filhos era tanto que florescia em qualquer lado. Mesmo na poeira estéril do mais infértil dos desertos o ódio nascia, crescia, corrompia...matava.
Gabriel interrompeu-o.
- Os seus filhos... apercebiam-se de si? Da sua existência? Terá sido claro, ou ainda permanecia o desejo adiado de salvar aquilo que definiu como a "doce expectativa de recolha do que de maravilhoso daí poderia resultar"...
- É verdade. Sempre mantive esse desejo. Poucas vezes me dei a conhecer como pai, como criador. Poucas, e quase sempre nas alturas em que perdia por completo o controle de mim mesmo. É verdade, doutor Gabriel. Até mesmo alguém que cria um universo pode descontrolar-se por obra da natureza dos seus filhos. Por isso, nos melhores de entre eles escolhi os meus mensageiros, os meus representantes, e de cada vez... esperava. E uma após a outra eles eram engolidos na vertigem do ódio. Durante séculos...
- Foi paciente...
- E não o é, qualquer pai? Fui paciente, fui. Nunca perdi a esperança mas... cansei-me.
E olhou de novo para fora dali, para a luz matinal. Ainda não se ouviam os carros. Não se ouvia nada. Gabriel não se atrevia a consultar o relógio, e sabendo que o velho prosseguiria, esperou. E o fio da exposição foi retomado.
- Resolvi ser pai de novo. De uma outra forma. Escolhi uma mulher entre todos os seres e transmiti-lhe a semente. A minha semente de pai. Este filho assim gerado iria revigorar tudo. Iria ser minha nova determinação. E colocá-lo-ia no meio dos seus irmãos sangrentos. Seria a gota que purifica o oceano. E assim fi-lo nascer. De uma forma simples, de glória adiada.
- E como o receberam?- Perguntou Gabriel.
- Como eu previra. Mal a sua excelência se fez notar, começou a representar uma ameaça. Os valores dos habitantes do mundo que criei são rasteiros, mas prezados, contudo. Defendidos com garras e dentes. Toda a glória cobre as paixões dos seres, amores palpáveis que não possuem valor algum... Coisas materiais, supérfulas. Gerei as únicos criaturas que julgam só ser felizes dependendo de tudo o que os outros prescindem, criando para isso bizarros conceitos de território. Nunca imaginei, Dr. Gabriel, que meros pedaços de celulose fossem o mote para disputas sangrentas. Ou que os cadáveres das criaturas primevas, sepultados em visco, armassem exércitos em magníficos choques de fogo... Tão grande era a sua presença que o meu filho veio ameaçar impérios, ao constituir ameaça para os seus deuses. Eles, os deuses de uma sociedade legitimam todos os seus valores, Dr. Gabriel. Ele veio colocar tudo isso em causa, ao dar a conhecer a verdadeira origem do mundo...Eu.
- Compreendo... E que aconteceu, quando se deram conta da ameaça representada pelo seu filho?
- Isso eu previra-o. Desde o princípio dos tempos do universo gerado, para mim foi regra sagrada, neste jogo, nunca verificar o futuro. Mas a estratégia de calcular a lógica sequência dos eventos faz, naturalmente, parte dele. E é claro que calculei o terrível fim mundano que o esperava. Preparei-me, e ele também. Mas nunca senti tamanha dor... não a esperava.
- E essa dor? Mudou-o?
- Sim. Depois do tormento que senti em carne da minha cria, a memória daqueles momentos agonizantes encontra-se presente... em cada segundo.
Os olhos do velho brilharam líquidos num piscar, e Gabriel sentiu-o...
- Contudo, e eu previra isso, o seu sacrifício foi sentido por todas as criaturas. E a sua dor, cantada. Consegui mais com a morte da carne do meu filho e a sua agonia, numa dúzia de anos, que com o terror de todas as visões do inferno e o dos meus alados exércitos de fogo em todos os séculos. Os seres sentiram na sua pele o supremo tormento do meu gerado amor. E foi esse amor que começou a conquistar o coração dos outros, seus primeiros irmãos. E o meu filho foi mestre na gestão da conduta desse amor imparável que por via do seu sacrifício entrou em todas as almas do povo criado e espalhado por mim. E aí permaneceu durante vinte séculos.
- Permaneceu? É esse o tempo verbal que utiliza, o pretérito perfeito simples? - Perguntou Gabriel, intrigado.
- Sinto que se está a desvanecer. Sinto que parte. Ao longo destes dois mil anos, nem todos foram salvos e, mesmo os que me defendiam cometeram excessos. Contudo, ia sendo satisfatório, o resultado. Sobretudo exercendo uma comparação com a fatia dos tempos antes do sacrifício da minha carne...
Gabriel sentiu que chegara o momento que explicava aquela consulta. Quando o velho referiu o filho, o psicólogo sentiu que existiria por ali um esboço de uma qualquer situação edipiana, mas isso desvaneceu-se em minutos, com o desenvolver do relato. E agora Gabriel sentia que chegava a altura... Sentia os olhos do velho a aproximarem-se dos seus, sentia-os a mergulharem na água quente do seu cérebro...

O relato prosseguiu. Mas já não o era. Gabriel ouvia agora o futuro através das palavras do velho. Um futuro estranho, maravilhoso e simultaneamente sombrio. O velho não confiava já na capacidade do amor do filho e sentia-se mais velho que nunca, mas ia agir. Cansado, triste, sem esperança e sem ilusões... iria, contudo, agir. O filho sabia, e andava dilacerado. No mundo gerido por eles ninguém tinha memória alguma das fúrias de seu pai, escritas apenas. Nenhum dos seus irmãos se recordava. Gabriel lembrava agora a terceira sensação que o seu homónimo lhe transmitira, na visita preparatória à do velho, no seu gabinte. Era um olhar. Um olhar de despedida, como se Gabriel fosse viajar para muito longe. Longe de uma realidade corrupta e apodrecida.
Era esse lixo que o velho iria limpar. Tinha desistido. Queria, finalmente, descanso. O filho que arranjasse outro entretém...
O velho calou-se, e dirigiu os olhos para a janela, trespassando-a e depositando-os no céu agora esbranquiçado, uma criação sua. Gabriel percebeu que aquelas duas chapas de mercúrio seriam suficientes para lhe mudar a cor. Esses olhos, que sentira a mergulhar na água quente do seu cérebro... Tal como aquele velho, mergulhado no sofá.
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domingo, 31 de agosto de 2008

cook book

Num banquete, sentaram um padre católico ao lado de um rabi. O padre, querendo gozar o rabi, enche o prato com pedaços de um suculento leitão e depois oferece para o "colega". O rabi recusa:
Muito obrigado, mas...não sabe que a minha religião não permite comer carne de porco?
Nooossa! Que religião esquisita! Comer leitão é uma delííícia! - Comenta o padre com ironia.
Na hora da despedida, o rabi aproxima-se e diz ao padre:
Mande os meus cumprimentos à sua mulher.
E o padre, horrorizado:
Minha mulher? Não sabe que a minha religião não permite o casamento dos sacerdotes?
Nooossa! Que religião esquisita! Comer mulher é uma delííícia!

o inimigo

É o termo que ouço, frequentemente, dentro do âmbito heterossexual, quando um imbecil qualquer se refere aos gays. Este senhor, que descobri ontem, e só ontem*, num programa televisivo, explica de forma brilhante, o porquê.
* Só ontem, mesmo. 

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

hipnose

Cada geração tem o seu tipo de música de dança, que é quase como um diagnóstico da sua saúde económica, social e mesmo da mentalidade colectiva. No século XX, o cancan traduzia o desejo de uma geração (amargurada por uma crise profunda) de festa libertadora, de excesso, de movimento.
Como tristezas não pagam dívidas, a malta quer mesmo é divertir-se. Em simultâneo, o cancan proporcionava a expressão ideal a um tipo de mulher que começava a sua primeira fase de libertação sexual. Quando nos lembramos dos Loucos Anos Vinte a imagem que ocorre é da garçonne. Porque, dos gajos, como eram ou se vestiam, ninguém se lembra e confundem-se com os abrilhantinados de uma outra década qualquer.
O rock n'roll do fim da guerra era a ilustração da euforia duma sociedade liberta do terror da mesma e com a memória recente do vou prá guerra ...um verdadeiro detonador sexual que mudou mais um pouquinho as mentalidades e os hábitos.
Foi por essa altura que foi também inventado o absurdo conceito de juventude...

Pois a tal da juventude dos nossos dias... assume-se. Aproveitou a deixa e faz juz ao figurino que lhe concederam: imagem de irresponsabilidade, de dolce fare niente, de inconsequência, de pequeno crime social... e aproveita cada minuto daqueles anitos do prazo que a sociedade lhe oferece até começar a pagar impostos e ser sugada por ela. Eu fiz o mesmo.
O trance nasceu num país com uma profunda dúvida de identidade: a Alemanha reunificada dos anos noventa.
Não pretendendo ser exaustivo na descrição, apenas acrescento o seguinte: por essa altura, em Goa (que por si merece um post, esta terra que foi A jóia cultural do nosso império) já existia uma comunidade de gente nova vinda da Europa atraída pelo misticismo oriental que se adequava mais à fome espiritual que a catequese. Dentro deste rico caldeirão nasceu o Goa trance e aquela terra belíssima passou a ser rota de libertação. E é isso que o trance é: libertação. Libertação hipnótica de uma realidade confusa, incaracterística, sem manual de instruções, depressora e de um futuro cujos relâmpagos que se adivinham no meio da névoa... A palavra inglesa trance significa transe, um estado hipnótico. Aqui, explica-se, com simplicidade, como se induz.
Em Ibiza existe a maior discoteca do mundo, a privilege. É um hangar para zeppelins com capacidade para onze mil pessoas. No outro dia perguntaram-me como seria, se lá deflagrasse um incêndio. Respondi que não existiam chamas suficientemente altas para chegar aquele tecto. À volta do hangar existem várias outras salas de discotecas satélites...gigantes.
Existem voos charter vindos de Londres com aviões cheios de putos que chegam ao fim da tarde e levantam a a meio da tarde do dia a seguir, e não é caro, porque em Ibiza as entradas nas discotecas pagam-se escandalosamente, porque lá dentro o que a malta bebe não é nem gin nem whisky...

Leva-se uma garrafinha de água que se vai enchendo na casa de banho. A pastilha é o que pede, para aguentar a pedalada e a transpiração contínua.

Isto é o que ouço, muitas vezes, quando me perco pelas noites. É só para quem aprecia uma selecção do melhor.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Os Três (Último)

Imaginem-se, de repente, a viver no século dezanove. E sem poder sair de lá.
É como eu me sinto, no século vinte e um.
Antes que me comecem a chamar nomes... leiam este tópico. 
Talvez o de maior utilidade aqui publicado.

Discos Voadores

Antes de mais, para abordar este assunto, julgo necessário um pequeno exercício, cuja simples execução vos peço:

Peguem num guardanapo, quadrado. Quanto mais pequeno melhor.
Abram-no completamente.
Com ele aberto, escolham dois dos quatro vértices opostos nos extremos de uma das diagonais que cruzam o centro do guardanapo...

Atenção. Este é um exercício mental que vai mudar completamente as vossas vidas. Mais do que todos os jogos de xadrês, gamão, majong etc.
É um aviso.

...escolheram os dois vértices? Ok.
Agora formula-se a seguinte pergunta: Qual a distância mais curta entre os dois vértices escolhidos?
A diagonal que os une? ...Errado.
Mas não esqueçam a diagonal. Usem-na como referência para dobrar o guardanapo... até os dois vértices se tocarem...

Parabéns! Descobriram a distância mais curta entre os dois vértices, que é a resposta à pergunta formulada neste texto.
Mais importante: descobriram a filosofia do raciocínio do futuro, o dos vossos trisnetos, e com sorte, ainda dos vossos bisnetos, que, quando lhes fizerem a pergunta na escola do futuro, responderão: zero...

Se continuam a pensar que o que aconteceu é um disparate, que a a distância mais curta entre os dois vértices escolhidos é a diagonal que os une, não tenham problemas com isso. Juntem-se aos milhões de contemporâneos de Nicolau Copérnico, que acreditavam que era o sol que se movia em torno da terra quando ele afirmava o contrário. Podem ainda juntar-se aos contemporâneos de Ptolomeu que ao invés dele afirmavam que a terra era plana e aos milhares em comunidades afastadas que acreditam ainda nisso...

Não é fácil, em segundos, convencer uma civilizacão inteira que espaço, tempo e o horizonte rectilíneo são curvos. Mas são.

Muitos cientistas excluem a possibilidade de viagens interplanetárias baseados na filosofia da diagonal do guardanapo: "Ahh...Demora muito tempo...a velocidade máxima conhecida é a da luz...". Mencionam viagens interestrelares com obrigatória animação suspensa e todo o tipo de disparates afins com base na teoria da relatividade cujo prazo útil só se continua a aplicar ao quotidiano.
E depois mencionam a questão da propulsão.
A merda da propulsão é um mito. Andam a perder tempo com combustíveis fósseis, com misturas explosivas que são autênticos venenos atmosféricos... energia nuclear... Esqueçam a propulsão!

O segredo das viagens interestrelares está em conhecer grande parte da filosofia inerente à dobra do guardanapo. Comecem por aí.

E é graças a esse conhecimento que há gente com um aspecto estranho que nos visita num minuto e após uma hora das nossas estará lá em sua casa, no extremo do vértice. Gente que complacentemente nos vê ainda a deslocarmo-nos duma forma complicada e poluente.

Acreditam em discos voadores?
Está científicamente provado que é mais fácil acreditar num boato, que em algo que se vê com os seus próprios olhos.
Quando eu era adolescente, ali na Linha, numa noite de sábado, num verão quente em que toda a gente andava a curtir o ar livre e o calor nocturno, milhares de pessoas assitiram à aparição de aparelhos estranhos no céu a evoluirem num espectáculo de luz, velocidade, acrobacia e cor.
Em Oeiras, Parede, S. Pedro, S. João...Estoril... Eu não vi, mas relataram-me as mesmas características, o que é raro (veja-se o relato das testemunhas dum acidente) no dia a seguir.
Três dias depois, toda a gente que me tinha contado o facto evitou falar no mesmo, houve mesmo quem culpasse o álcool ou a ganza...

Existem milhões de relatos, documentados, agora já com a chancela de governos (como dos E.U.A.) que admitem o "fenómeno".
Eu cá sei é que, quando tinha doze anos, achava que no ano dois mil iria ser assim: tudo a deslocar-se silenciosa e rápidamente pelo céu...
...Sinto-me enganado. É que eu, pelo menos, faço o meu trabalho direitinho.

Senhores cientistas, livrem-nos do petróleo, da poluição, da propulsão... Não se preocupem com fundos, com políticos e o lobby dos combustíveis fósseis.
Os irmãos Wright eram fabricantes de bicicletas, senhores...
e agora toda a gente anda de avião... por enquanto.

Agarrem-se ao guardanapo. Eu sei que se sentem ainda bebés, e que ele vos faz lembrar as fraldas em que estão metidos em relação ao vosso vosso nível de conhecimento, mas ainda assim... Podem começar.


...


Ai meus Deus! Este gajo deve estar doido...
Não explico a existência divina, mas terei gosto de explicar o porquê da mesma, nesta continuação deste bizarro raciocínio que um dia será o normal.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

à borla? já não.

Um médico e um advogado encontravam-se numa festa. Entretanto, um dos convidados aproxima-se do médico e pede-lhe um conselho relativo à úlcera que o afligia. O médico ouve-o, aconselha-o e afasta-se...
Aproxima-se do advogado, de cabeça a abanar, e pergunta:
- Como lida com casos destes, de gente que o aborda em tudo o que é sítio para lhe pedir ajuda profissional?
- Eu? Envio-lhes a conta, no dia seguinte - responde o advogado, sorridente.
Na manhã seguinte, ao chegar ao consultório, o médico pede à secretária para enviar ao “cliente” da noite anterior uma conta de cinquenta euros pelo conselho dado na festa. Após isto, encosta-se na cadeira e sorri.
A felicidade do médico, no entanto, acaba na tarde do mesmo dia... ao receber a conta de cem euros, do advogado...

terça-feira, 26 de agosto de 2008

à borla

Este tópico não se refere ao contexto específico da blogocoisa.

Eu cá tenho um defeito. Não esperem grandes opiniões, quando mas pedem. Sobre este ou aquele assunto.
Calma. Não é tão grave assim, porque como sou perspicaz, se vejo alguém amigo em dificuldades, sabendo que a minha visão das coisas pode ajudar, entra logo em acção outro dos meus defeitos: parto para a acção, muito rapidamente. Há quem confunda as coisas e afirme que o que faço na realidade é partir para a agressão. Mas não é. Embora eu perceba, porque às vezes agride. Sacode. Vejo o que se passa e tomo medidas. Se me quiserem questionar depois sobre as mesmas é claro que estão à vontade. Posso é não ter tempo...
Sou perspicaz, pois. Tão perspicaz que, por exemplo, numa intervenção escrita ou falada, consigo adivinhar se uma mulher está com o período. Em algumas, isso é transparente para mim.
Deixei de dar opiniões porque, na verdade, é barato. Nada é tão barato como uma opinião. E sinto isso diariamente. Ainda não acabei um trabalho qualquer e começa logo o chorrilho. E nada pode ser tão daninho como uma opinião sem fundamento.
Acho que era o Voltaire que afirmava que nada é tão perigoso como a sabedoria dos ignorantes em acção. E um ignorante pode ser um génio, mas ignorante circunstancial.
Tendo isso presente, a nível profissional deixei de as dar. Se alguém me pede uma opinião, o que lhe posso fornecer é um aval. Um parecer. Para isso recorro a todo o meu cuidado e saber, à minha visão analítica, e tento distanciar-me friamente o mais possível do objecto. E tempo. E só depois forneço o belo do aval, e habitualmente defendo-o como uma falange macedónia. Mas isso sou eu, um nazi do cacete.
Há anos, num filme da série B, ouvi uma grande verdade: a opinião é como um cu ...toda a gente tem um.
O que considero então a bela da opinião? Aquela que não presta, essa mesmo, a sentença, o que é?
Façam uma experiência: coloquem um grupo de pessoas perante uma questão. Mas não uma qualquer, dada de mão beijada. Uma, sim, que implique trabalho, tipo... aconteceu isto, como podes ler neste documento. Aquilo, como podes ler naquele. E depois sucedeu aquilo, presente naquele acontecimento, que culminou nisto, aqui à minha frente.
O que irão observar é o seguinte, numa primeira fase:

Uma fatia das pessoas cala-se. Dentro dessa fatia, vai haver uma divisão: aquelas que olham para o relógio e se vão embora porque deixaram algo ao lume (que são as que se estão nas tintas para vocês...), e as que ficam em silêncio a analisar os dados fornecidos.

Outra fatia simula uma pausa e, achando que tudo viu, olha para a vossa cara e descarrega uma opinião que tem a ver com tudo menos com a questão presente.
Nomeadamente, se não gostarem de si mesmas duma forma franca, tipo SOS, a frase começa sempre com um sei lá... Se já não gostarem de vós, começam por perguntar se terá sido mesmo assim (!), mas, muitas vezes, na maior parte, isto não é verbalizado ... Se gostarem de si mesmas duma forma exarcebada, já começam a dar a opinião, mal acabou a exposição de dados... E ainda existem aquelas que tendo um fraco amor próprio destinado a ser eterno... vocês nem as ouvem. Mas que elas falam, lá isso falam... estou aqui e também tenho uma opinião... um voto na matéria.
Depois vem a segunda fase: vocês. Toca de levar com o embate... Se por acaso toparam todas as opiniões daninhas, diplomacia é fundamental. E a diplomacia implica mentir. Pois é. Agradecem a opinião de cada um e fazem promessas protocolares de a tomarem em consideração antes de qualquer decisão. Podem não mentir... e partir para um debate titânico onde no fim podem ouvir coisas como o facto de vocês "não suportarem opiniões, ou críticas"... quando na verdade o que não suportam é setenças gratuitas.

No fim, timidamente, lá aparecem os que dão uma opinião fundamentada. São os da primeira fatia e segunda metade da mesma que ficaram a olhar para aquilo. Muitas vezes o seu parecer está em completo desacordo com o vosso, mas isso é bom. Ontem li aqui o porquê: "eu gosto de ping-pong nos argumentos porque me anuncia perspectivas diferentes da minha". Simples e brilhante. Está lá tudo (esta sereia tem uma tola...).
Esta malta é rara, mas é a que se deve ouvir, por muito que, por vezes, doa. Mas é exemplo a seguir, a reflexão antes de emissão.

Mas, existe um grupo tenebroso. Tanto que nem sequer o referi aí na fábula. São os das ideias feitas. Aqueles fanáticos que rosnam a tudo com a linguagem da sua ideologia. Aqueles que possuem um guarda-roupa de conceitos e preconceitos. Aí, quando lhes cai à frente uma questão, vestem-na logo com as cores do armário...

Na verdade, todos nós temos um pouco de tudo isto. Mas, como em todos os cozinhados, o que sabe melhor é o de melhor tempero...

Este é o meu aval, em relação a sentenças. Embora sendo à borla, o raio do bicho sai caro a todos nós... só atrapalha.