terça-feira, 19 de agosto de 2008

o importante é participar

Ontem ouvi isto.
E dei um pulo.

Porquê? Apenas vi quem o proferiu na tv. Era um senhor já idoso, para mim desconhecido. Questionado, em Pequim, pela equipa de reportagem sobre os resultados menos bons da delegação portuguesa nas olimpíadas, saiu-lhe, entre outras... esta.
Encontrava-me eu deitado e dei um pulo. Com o corpo todo.

Sou um apaixonado de estratégia, que, como a defino, é a filosofia do objectivo. Não quer dizer com isto que seja um estratega de excepção. Considero-me apenas alguém que conhece a importância do conceito em todas as vertentes das nossas vidas.
E é um conceito tão importante, que, não sendo correctamente utilizado, pode constituir a diferença entre uma sociedade próspera e outra como a nossa...
Passo a explicar: Quando olhamos em frente, delineamos o nosso objectivo, ambicionando-o. Isso aplica-se a um indivíduo, a um casal, a uma família, uma associação, um clube desportivo, uma empresa, uma multinacional, uma nação...um país.

"Que queres?"... é uma pergunta mágica. Aconselho-a, o mais possível. Recomendo-a, em qualquer altura das vossas vidas. A Lenib, lançou aí há tempos um desafio: 10 sonhos a cumprir antes de morrer. Não me ocorreu nenhum. Ne verdade, alguém que me lê por dentro, há meses afirmou que a forma como eu via o meu futuro era longe daqui, noutra realidade. Julgo que isso adormeceu todo o resto e, quando me convidaram para partir, senti que de repente tudo na minha vida fazia sentido. Agora sei o que quero, dantes apenas o sentia...
Mas, adiante... Na verdade, e isso tem de se encarar, obrigatoriamente... este é um país medíocre.
Vá lá... não se ofendam. Se fosse bom, a malta não se queixava, e como julgo que bem lá no fundo de cada um de nós existe o secreto desejo de o melhorar, o primeiro passo é tirar o pulso qualitativo à coisa. E medíocre... sempre é melhor que mau. Mas não chega... certo?
A forma como encaro a nossa mediocridade, acho que a expus de forma sintética e sobejamente interessante aqui, por isso não me vou repetir.
E um dos factores de peso que contribui para a nosssa mediocridade, é o bafio dos séculos, neste quarto de arrumações esquecido pelo mundo. Encontramo-nos presos entre Espanha e o Atlântico, e este jardim à beira mar plantado há muito que não conhece a rega.
Minto...Foi regado pela CEE... mas foi curto, para uma seca de séculos. Na Europa, qualquer país, mesmo velho, tem sido uma estrada. Uma estalagem.
Ou era invadido, ou invadia, ou era culturalmente colonizado ou colonizava. Misturava-se com os outros. Este não. Somos a cabana perdida na floresta onde vivem os gajos que nunca ninguém vê.
De tal forma que quando em oitenta e cinco viajei na Holanda, os amigos da minha namorada holandesa da altura, a Edda, olhavam par mim embasbacados e afirmavam: Mas tu és um europeu! És um de nós! Tens um ar... civilizado...
Não lhes levava a mal. No Sud Express via bem os portugueses que por lá andavam...

Não vou rosnar para aqui à nossa falta de ambição. Mas tentarei explicá-la. Ambicionar é olhar em frente, como referi. E antes de olhar em frente olhamos em volta, para escolher a direcção do olhar ambicioso. Emparedados pela Espanha, séculos atrás, foi para o mar que olhámos.
Demo-nos bem.
Mal sai do país, qualquer português deixa de o ser, na sua pior vertente. Passa a ser um cidadão do mundo.
Os ingleses colonizavam em comunidade, os portugueses vão para qualquer lado e enrolam-se com as nativas, fazem filhos, detonam mestiçagem. Não são esquisitos. Tornam-se alegres, sociais. Optimistas, ambiciosos... parecem outros. Aqui não. Se alguém vê alguém melhor...citius, altius, fortius... ei, onde é que tu vais? Nã, nã...ficas aqui com malta, na média...
E é na média, na mediania, que se quer o vizinho... na mediocridade. Porque o importante é participar.
Aqui não se compreende bem o sucesso. Encontra-se associado à figura do "rico" da bíblia, sócio do camelo que passa pelo buraco da agulha. É fulcral. Não é à toa que as sociedades protestantes possuem um índice de sucesso superior...
Foi também para fugir desse bafio catolicista, que os portugueses se lançaram ao mar.

Sendo assim, como não há sucesso, ambição e outras coisas saudáveis que insuflam a sociedade e o ego... e como se nivela pela mediocridade... o importante é participar.
Eu cá não me meto em participanços, em carneiradas. Quando me meto é para ganhar, para brilhar. Cumprir e ultrapassar objectivos. Não concebo nenhum empreendimento sem eles.
Esperam-me em outro continente. Fornecem-me casa, carro, comida e tudo o que vocês se lembrarem. É claro que não estão à espera dum mero participanço da minha parte. Não vou lá para participar. Vou cumprir objectivos. E sou homem de criar outros.
Imaginem lá eu não dar conta do recado e afirmar... à laia de desculpa... "o importante... é participar!"
Uma derrota não é vergonhosa. Se não der cabo de nós pode ser uma lição fundamental para a vitória a seguir. E como é doce a vitória... olhemos em frente, onde elas estão, as doces vitórias.
Ainda há meia hora atrás desci a escada de incêndio do meu prédio, que não tem resguardo algum. Moro nos últimos andares e quem olha lá para baixo mija-se todo. Mas não era lá para baixo que olhava, quando descia, nem para cima... Olhava em frente, para o ferro que me vincava as mãos.

Como é verão, e a malta tem-se rido, por aqui, aceitam-se mais exemplos... participa!
.

37 comentários:

vita disse...

Mais um texto brilhante meu querido!

É assim mesmo, eu tenho por hábito dizer que só faço algo quando o faço bem, existe coisas que não tenho jeito ou não gosto, não forço.
Mas existe outras que até sei fazer, então aplico-me ao máximo até ser perfeita.
Isto para dizer que o que faço é bem feito, não aceito menos, não quero menos.
O participar pode e deve ser construtivo, mas o participar para ganhar, não para dizer que se fez.

Até participamos na guerra de Ultramar e isso só nos trouxe homens mortos, feridos e a grande maioria com problemas psicológicos até hoje.
Em participar sendo o fodido estamos nós fartos, queria ver era participar e sairmos vitoriosos.

Mas a linha de pensamento é essa, "o importante é participar" uma merda, o importante é ganhar!

Beijooo ternurinha

xunana disse...

Não sei se viste o comentário daquele garoto português, um atleta nosso alto forte e espadaúdo, que dizia que competir de manhã não era para ele. De manhã é para se estar na caminha e ao final da terceira tentativa (já não me lembro qual a especialidade) ele dizia que as "perninhas" queriam era estar "esticadinhas" na "caminha"...

Nacional pequenez.

Beijão

xunana disse...

Marco Fortes é o nome do lançador de peso, o tal da caminha...
Nada como as maravilhas da tecnologia - internet - para encontrar tudo e mais alguma coisa.

Beijão

Su disse...

como sempre tenho de estar de acordo contigo.....

um texto lucido, coerente....na realidade spre tudo o q por nós foi feito foi na base do desenrrasca, no copiar, no participar só com um aceno de cabeça----

------, pasmei com essa descida pelas escadas de incendio..isso sim......é um risco vivido, mas atento à chegada:)

ok , voto em ti

jocas maradas .....sssssssssss:)

pinguim disse...

Acabei há pouco de ouvir as desassombradas afirmações daquela "miúda", que ganhou até agora a única medalha para Portugal, sobre a participação portuguesa nos J.O.
Fiquei convencido, porra! A Vanessa além de uma grande atleta é também uma pessoa, que como tu, olha para a frente, em vez de se resguardar nos feitos já conquistados.
Sinto-me verdadeiramente envergonhado, como portugués que sou, não com os maus resultados obtidos ( o que aconteceu a Naíde Gomes, em nada belisca a ideia que dela tenho), mas sim com as descabidas e anedóticas afirmações proferidas por alguns dos atletas; cada vez que volto a ver o ar de javardo daquele tipo do peso a "vomitar" aquilo da caminha, só me apetece enfiar-lhe um murro nos queixos...
Enfim, o teu texto retrata bem, infelizmente, o que somos.
Abraço.

Rocket disse...

vitinha

disseste tudo, copy-paste:

uma merda, o importante é ganhar!

obrigado pela vitoriosa participação...
puta que pariu a mediocridade... vou ser BOM para outras paragens!

beijinhos mesmo bons

Rocket disse...

xunaninha

felizmente não vi essa pérola, mas espero que a vida o castigue...
um amigo meu de há vinte anos atrás, o raul gimeno, o campeão espanhol e olímpico de lançamento de martelo, era um exemplo de combatividade saudável. dizia-me, mostrando as mãos gigantes: já olhaste bem para elas? se tocam em alguém... por isso é no estádio que elas têm lugar... era um bom vivant, tinha um bar com amigos, em madrid, mas treinava com afinco para continuar e ir mais além do topo...

aqui ouvem-se dessas?

e depois admiram-se do país de merda?

beijos amiga

amanhã vou mencionar-te por aqui...eh eh

silicone valley...eh eh

beijo

Rocket disse...

xunaninha

nunca me interessei pelos sinaizinhos inscritos nos sacos de lixo...

beiiiijos



amanhã?

Rocket disse...

su

não te contei o resto. o boxer que saltava lá em baixo, a tentar morder-me a canela em cima do muro ...

...mas o lençol que caiu já está lavadinho de novo...

jmas

Rocket disse...

pinguim

não ouvi essa do gajo do peso, li aqui na xunana e em ti. mas grave é o que está por trás. é a tal falta de valores. o importante é participar..."olha, fui aos jogos olímpicos..."
deviam tê-lo informado da mística inerente...pqp...a todos...

abraço

xunana disse...

Amanhã lá estarei!

Beijão

Rocket disse...

xunaninha

obrigado pela futura participação...lol

beijo

Mlee disse...

Eu costumo dizer que admito o erro, a falta de esforço é que não ...
O erro é o melhor caminho para a criação de procedimentos que não permitem a nova falha, já a preguiça ou o partir derrotado, não são chão para coisa nenhuma ...
Apontar para a excelência mas, ao mesmo tempo, admitir que não somos máquinas e que "herrar é umano"!
Esta lição aprendi-a à custa de trabalhar sózinha há dez anos ...
Beijo grande mano.

Rocket disse...

mlee

apontar para a excelência é uma garantia de atingir a qualidade. é a minha teoria do tiro curvo: apontar para o céu para atingir o telhado...

...mas... tu alguma vez trabalhaste sózinha? estava cá já eu a enviar-te energias, maninha...ooooom...

beijos mana

D.Antónia Ferreirinha disse...

Rocket, eu gostava que o país tivesse muitas pessoas que pensassem como tu. Talvez esta merda fosse prá frente.
Eu não entro em nada pra perder. Pode acontecer mas fico fodida comigo própria embora aprenda que a definição das minhas estratégias têm de ser ainda melhores.
Competitividade saudável , o país precisa e preciso eu para andar em frente.
A ti digo: serás um vencedor, só pode.
As minhas origens irão de facto benificiar em muito com alguem como tu.
Beijinho foguetinho emigrante.

Rocket disse...

d.antónia ferreirinha

eu também gostava que neste país existissem mais pessoas a pensar assim. e a sentir assim.até eu ia para a frente...

este atrazo mental atrofia-me...

beijos

Safira disse...

Eu ando a dizer que este país é um atrofio há anos...vê-se em tudo. Desde o laxismo de governantes e empresas, à falta de brio pessoal, ao facilitismo e chico espertismo que parece ser bandeira nacional.
Esta questão dos J.O é apenas uma gota de água, e tu sabes disso melhor do que eu, que já viveste mais. Mas continuo a achar que é um problema de liderança. Os líderes são medíocres. Alguma vez um atleta de uma delegação diria alguma coisa semelhante às barbaridades que se têm ouvido? è que iam para casa na hora a seguir. O que é esta merda? A culpa é dos árbitros, da poluição, do estertor do estádio? Trabalhem, amigos, e se a coisa correr mal é porque os outros são melhores. Resta-vos trabalhar mais. E de boca calada, de preferência...

Beijinhos oh captain my captain!

Canuca disse...

Eu tenho vergonha de ser portuguesa...ponto...N me interessa se a selecção Nacional ganha, n me interessa que medalhas ganham nos jogos olímpicos, se estão cansados, se querem ficar na cama ou se simplesmente estão velhos e já n deviam estar a competir a este nível, porque tb n me interessa que sejamos muito bons como atletas e que este país continue na merda que está…Neste momento até podia ser Colombiana que n me importava, n variava muito.
Somos campeões na trafulhice, no deixa para amanhã que hoje n dá, na corrupção, no vamos dar uma casa a este para ver se ganho mais um voto, nos subsídios a quem n merece, no pagar pouco a quem trabalha e a quem n trabalha pagar muito, depois admiram-se que os bons se acomodem ou saiam do país, somos exímios na arte de enganar o próximo, portanto estamos à beira mar plantados à espera que toda a porcaria que por aqui desagua.
Eu gosto de viver, sobreviver para mim n chega…mas por vezes parecemos meros participantes numa vida que deixou de ser nossa faz tempo.

Já ando a comentar este assunto desde ontem, começo a ficar deprimida lol e com vontade de partir nem que seja para a Santa Cona do Assobio...ou talvez mais férias lol n sei...lol :)

Beijinho

D.Antónia Ferreirinha disse...

Rocket, desculpa, eu pensei que te rias por os dois, embora de formas diferentes, termos falado em competitividade.
E de ti espero, sempre a brilhar.
Beijinho com carinho..

Antunes Ferreira disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Pearl disse...

"detonam mestiçagem" adorei esta frase...mesmo!

"Quando me meto é para ganhar, para brilhar. Cumprir e ultrapassar... "
E esta tambem!
Adorei ler-te, cheio de ambição projectos...coragem!

Desejo-te toda a sorte do mundo!(mesmo)

beijo (mas não digo onde)

Pearl

apenas um gajo... disse...

O importante é conseguir!, é tão simples...
mas isso implica superação e esse é o estado de espírito que falta, não creio que o português seja preguiçoso, não gosta é de arriscar, de ir para lá das suas forças, contenta-se com o 'mal-amanhado'.
Por isso os poucos que se superam fazem tanta diferença e surpreendem tanto neste pequeno país.

Um abraço

Tá-se bem! disse...

Desculpa lá, essa das escadas de incêndio foi a fugir a alguma participação indesejada ou foi mesmo pelo gozo?? ahahahaha

Também gosto muito daquela expressão tão portuguesa "- vai-se andando.."

E pronto.

"-É preciso é ir andando.." respondemos quase de sem pensar.. Tssss

Abração

Magucha disse...

fizeste-me lembrar porque detesto as novas "teorias pedagógicas". Explica-se as crianças desde pequeninas que o importante é participar, não há vencedores nem perdedores, e todos têm direito à medalha de participação. E as consequências disso...? Estão descritas brilhantemente no teu post.

Continuo a não perceber o sentido do fazer por fazer, ou participar por participar. Ou se dá o melhor, ou então nem vale a pena!

Bms

Rocket disse...

sapphire

este ainda é um país camponês que ainda não se habituou a prédios e carros... e escritórios...

bjinhos miaus

Rocket disse...

canuquinha

é mesmo. plantaram para aqui isto e com falta de rega o raquitismo impera...

bjinho na testa

Rocket disse...

d. antónia

foi por isso que me ri, pela sincronia...

beijinhos

Rocket disse...

pearl

não quero que digas...sussura.

beijo no pescoço

Rocket disse...

apenas um gajo...

e esses têm mérito a triplicar... é que aqui se nivela por baixo... e há-d vir sempre um fdp a deitá-los abaixo com uma ou outra calúnia...

abraço

Rocket disse...

tá-se bem


caiu um lençol lá em baixo e toda a gente estava fora ou de férias...

vai-se andando, cacete...

abração

Rocket disse...

magucha

era aí que queria chegar. mesmo!


bms

Rafeiro Perfumado disse...

Como mesmo após ler o primeiro comentário do poste lá de cima não percebi um bovino, recostei-me na cadeira e deliciei-me com este texto. E aqui sim, já encontrei umas quantas palavras que até fazem sentido para mim. E como tens razão, caro Rocket. À minha pequena escala (não, não estou a falar de atributos físicos), já senti na pele o que é tentar sair da mediania, tentar dar uma pedrada no charco. Imediatamente isolado e etiquetado como "não convencional", cedo percebi que para fazer o que queria não o poderia fazer de forma aberta, e nem sempre que o quisesse. A saída para outro país como forma de poder continuar a crescer é um plano que nunca abandono em definitivo, mas só quando enfiar nesta cabeça dura que é a única solução é que o abraçarei de vez. E sim, é um objectivo.

Um abraço.

Rocket disse...

rafeiro perfumado

em relação ao de cima houve um

http://rocket-slavetotherhythm.blogspot.com/2008/08/silicone-number-one.html

e não houve nº2...

em relação a este, parece que é anseio de todos os que valem algo mais que a porcaria de mediania que nos impõe, como meta...

abração

LopesCa disse...

"apaixonado de estratégia"???
Já jogaste Travian?

Rocket disse...

lopesca

não gosto de jogos...sorry

beijos

Sorrisos em Alta disse...

Um ferro a vincar-te as mãos?
Seria a porteira a dar-te vergastadas, e a dizer que não se desce por ali, que ela tinha acabado de limpar as escadas?
;o)

Já mais a sério, de facto não consigo perceber essa do importante é participar. Muito menos numa competição que tem tudo de profissional, que é uma verdadeira guerra entre países

Abraço

Rocket disse...

sorrisos

se a porteira estivesse cá não tinha de descer pelas escadas de incêndio...

importante é participar: compreendo que numa primeira fase se meta isso na cabeça dos putos, mas depois eles deixam de o ser e a vida não se compadece com participanços... mas curiosamente, neste país a mediocridade arranjou um jeito... mas isso sou eu a achar...tenho a mania das conspirações, quiçà...

abração