terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O Alemão


Acabo de pousar o meu telemóvel, um Sony-Ericsson. Com o braço, varro levemente o rato luminoso para o lado. Ostenta um símbolo universal: uma maçã branca com uma trinca. Afasto-o, para melhor usar o teclado do Mac.
Olho para um ecrã plano Formac, para ler o que escrevo.
Quando o comprei, há cinco anos atrás, tinha sido premiado pelas revistas da especialidade como sendo o melhor para Macintosh. Ficou à frente dos próprios Mac ( que agora acho enfadonhos) e toda a alminha que entra aqui no atelier ainda agora lhe gaba a elegância. É porque é mesmo catita... ecrãs planos há-os a pontapé...
Os meus dedos e o teclado, ao escreverem, são iluminados por uma candeeiro Artemide E-light, premiado, que também funciona muito bem vai para alguns anos.
Antes, colocara a carregar uma máquina HP que há anos me custou seiscentos e tal euros. Hoje seriam apenas cem e com melhor teconologia. Mas esta nunca me deixou ficar mal.
Para onde olho, tudo possui o logotipo em língua estrangeira.
Os últimos objectos utilitários portugueses que me lembro de ter possuído eram candeeiros em polipropileno duma série interessante de jovens designers nacionais que eram extremamente baratos. Foi lamentavelmente descontinuada, a sua produção...
Cá em casa, para ver algo genuínamente português, tenho que olhar para um dos espelhos. Que os há, sempre destapados, contra os princípios do Feng Shui, ao qual deveria ser mais atento.

Hoje, usei o meu Macintosh para aceder ao meu blog favorito. (anda para aqui uma puta duma mosca enorme, acreditam? Paf! tive que me deslocar à sala para trazer o mata moscas Phillipe Starck. Os gatos mandaram-no para trás da Grundig. Com ele na mão foi fácil. A puta não saía da frente do ecrã, atraída pela luminosidade. Agora jaz na cadeira finlandesa esfarrapada pelos cabrões dos gatos. Trouxe-a da sala pois tinha dificuldade em convencer os meus clientes que o gigantesco cubo luminoso assente no chão, Um Toto milanês, além de candeeiro premiado, era também um confortável banco. Ainda assim, alguns, ao olhar para o esfarrapanço da cadeira, nele se sentam alegremente. Quanto à mosca... acabou de estrebuchar, podem marcar-lhe a missa do 7º dia... Este Phillipe... até mata-moscas, senhores!)

O meu blog favorito é domínio duma jovem com um talento endiabrado para fazer rir o próximo da forma mais simples possível: Ela muito simplesmente descreve a sua vidinha, da forma mais divertida que se pode imaginar. Dia após dia, vamo-nos rindo com as suas peripécias... Nomeadamente no seu trabalho. E em paralelo, apercebemo-nos das suas qualidades profissionais, do seu empenho e valor, patentes nas entrelinhas de cada descrição.
Lendo-a há apenas alguns dias, apercebi-me facilmente de algo, que deve ter escapado a quem só se consome o simples humor dos seus posts. Tanto empenho, trabalho e dedicação, além de uma segunda-feira que ela já previa apocalíptica, cansaram-na, e muito. E foi, assim, sob a tónica do cansaço, que escreveu o seu post de hoje. Descrevia uma cíclica reunião importante na qual teria que comparecer e em que na última vez a sua participação activa lhe valeu um acréscimo brutal de trabalho.
Como tal, por graça, usou uma analogia cómica para afirmar que na de hoje, iria personificar alguém menos intelectualmente capaz, para não repetir a dose anterior...

Existiram duas leituras: a minha e de alguns, que acharam graça e comprenderam o motivo: o cansaço.

E a de outros, que viram na sua atitude uma exibição habilidosa e criativa de algo típicamente português: a Esperteza*.

O português é Esperto e orgulha-se disso. E enquanto observa outro Esperto o que diz é: "esperto é aquele, que não faz nenhum." e quando fala em discurso directo, o parceiro apanha logo com uns "tá lá quietinho, que a gente ainda se safa desta", "faz de conta que não é contigo e vais ver que corre tudo bem"...
Além disso, o português é, também, Desenrascado...com uma pastilha elástica resolve o problema do escape de um autocarro de passageiros... com uma meia de senhora finge-se uma correia de ventoinha... E não se esqueçam: os Portugueses, Espertos como são levam, sempre os prémios nos concursos de inventores...lá fora.

Então não percebo.

Com tanta Esperteza, porque é que o meu telemóvel, computador, mata-moscas, candeeiro, câmera, cadeira...não ostentam a etiqueta Made in Portugal?

Bem, ao ler alguns dos comentários ao post, meti-me na pele dum alemão vulgar, e a reflexão do mesmo (ao fim de muito tempo a tentar perceber a graça que tem fugir a responsabilidades, evitar dar o seu melhor, denunciar problemas e apresentar soluções, enfim, ser construtivo, por que só o sendo se faz evoluir o que nos rodeia) foi: hum... já percebi porque é que nós desenhamos, construímos e exportamos Porsches... e estes indivíduos...

...rolhas.


* Onde se lê "Esperteza" colocar antes da mesma a palavra "Chica" com um tracinho horizontal pequenino a seguir...
Outra coisa: O senhor da foto era Austríaco, e não Alemão...

10 comentários:

Maria Manuela (M&M) disse...

Rolhas ???? LLLLOOOLLLLLLL

E o vinho do Porto ??? Não é nosso ???

E a mobília de quarto ? Não é made in Paços de Ferreira ??? Un ???

beijos

Rocket disse...

M&M

O vinho do Porto é Vinho do Porto graças aos ingleses e jamais eu teria mobiliário algum de Paços de Ferreira.
Nem eu nem nenhum...alemão

eh eh

Anónimo disse...

Ana disse...
Ah caro Rocket como te compreendo...por isso temos tantos portugueses là fora...que jà nao voltam...mas porra,isto até é um jardim à beira mar plantado(com caquinhas de lulus)!E quando nao chove tem o melhor clima da europa!
bjs

Rocket disse...

...Com caquinhas de Lulus...que máximo, se ainda desse para exportar como Guano... talvez um xico-esperto se lembre...

bjs

Anónimo disse...

Ana acrescentou...
Eu como te conheço como pessoa de Muito Bom Gosto e sei que nao vais comprar nada a Paços de Ferreira, dou-te um conselho de Chica- esperta vai olhar as vitrines das melhores montras porque as HA,nao vas tu perder(eu sei que seria dificil)o teu bom gosto!

Rocket disse...

Ana

Eu agora não compro nada em lado nenhum e montras só as que olho o meu reflexo para ver se não estou despenteado.
O tal bom gosto fica portanto em banho-maria. Contudo, no dia que Paços de Ferreira começar a investir em bom design torno-me fácilmente seu consumidor, depois da crise...
Até lá... Ikeá...

beijinhos

Xunana disse...

Mais lindo, no teu post de hoje, português só mesmo tu meu querido foguete escravo do ritmo.

Beijo grande

Rocket disse...

Xunana

Que é que queres, eu até nasci em casa (fabrico artesanal, e caseiro, portanto) mas a única fábrica de coisa alguma genuínamente portuguesa é a Alfredo da Costa...
Por favor contrariem-me...seria uma alegria!


bjs

Magucha disse...

Rocket,

Estás-te a esquecer da Vista Alegre, que além de se manter portuguessísima, comprou a Sévres e mais umas históricas casas de porcelana e cristais europeias. (Agora não me lembro de quais, e não me apetece perguntar ao tio google. Chateei-me com ele!).
O nosso sistema de multibanco é o mais avançado do mundo.

Há uma pequena minoria de empresas portuguesas de elevada qualidade, reconhecidas nacional e internacionalmente, algumas das quais até têm a coragem de dizer ao público português que são "tugas".

Temos coisas muito boas, outras muito más, mas o que predomina é o apatismo. Fala-se, reclama-se, queixa-se que ninguém faz nada, mas na hora da acção...

Num aparte, é por causa do Adolfinho na foto que se diz que os austríacos são os melhores relações públicas do mundo. Convenceram toda a gente que Hitler era alemão, e Beethovan austríaco! ;)

Rocket disse...

Magucha

Tens toda a razão. Não me esqueci e lembrei-me até de muitos outros exemplos.
A Vista Alegre, além de primar pela qualidade e agressividade no mercado possui e cultiva uma excelente imagem. O exemplo do Multibanco que deste é também excelente. E poderiam referir-se muitos outros... como o do nosso mercado de comunicações móveis, que dá cartas ao americano, na voz...
Contudo, ainda existe muito facilitismo patente na imagem do portuga... e é contra isso que devemos estar, se quisermos sobreviver na selva que nos espera, quando a China nos entrar pela porta... já fazem lá Bms (com marca chinesa...) com tecnologia bávara, a metade do preço...

Por isso, tu, que pareces entender de marketing entre outras coisas, me leste exagerar...

bjs