terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Invasões de Campo


Eu vi jogar o Eusébio.
Era muito pequenino, eu, e achava graça ao barulho da multidão nos jogos de futebol, porque, na verdade, não percebia muito bem o que se passava lá em baixo.
Mas o que me divertia mesmo, à séria, eram as invasões de campo. Era giro. Aquela malta toda a correr em múltiplas direcções, aos saltos, os jogadores a fugirem em tronco nú, e um idiota qualquer todo contente com uma camisola vermelha nas mãos...
Bons tempos, embora a preto-e-branco, ao som do Gianni Morandi, das empregadas a passar a ferro e do lamaçal que envolvia a Catedral ( como podia alguém orgulhar-se da majestosidade de um estádio sitiado por lama?).
Depois, começaram a cercar os estádios por fossas (com crocodilos é que era...) e redes altíssimas que obrigavam os potenciais invasores de campo pendurarem-se às mesmas da mesma forma que eu observava no jardim zoológico alguns primatas furibundos a agarrarem-se às grades da jaula.

Foram muitos anos sem Invasões de Campo, um desporto dentro de outro.

E foi aí que comecei a apreciar futebol (Já não havia Invasões de Campo...um tipo tinha mesmo que se entreter com a bola nos pés daquela malta colorida lá em baixo...) além disso tinha um amigo que me levava para os camarotes. E lá é que era: rosbife, champagne, cogumelos recheados... e podíamos ver as repetições numa tv pequenina...

Enfim...

Mas, para os apreciadores, como eu, das Invasões de Campo, tenho uma comunicação importante a fazer: elas...voltaram.

Não. Não nos campos de futebol. Isso acabou, infelizmente.
Agora, para quem quiser apreciar uma bela duma Invasão de Campo em todo o seu explendor, basta continuar sentadinho no seu posto de trabalho na empresa em que exerce o seu métier.
Eu explico: Aqui em Portugal, cultiva-se a imagem do Homem do Renascimento, do Leonardo da Vinci laboral. Assim, um profissional não pode exercer a sua especialização exaustivamente. Tem que tocar todos os instrumentos da orquestra, perdendo-se num sem-número de afazeres dentro das empresas, que neste país seguem a lógica do desenrascanço, contrária à da especialização.

Por isso, quando alguma dúvida (normalmente levantada por quem é habitualmente pago para tomar decisões) se manifesta, o senhor ou senhora, que estão aí sentadinhos no seu lugar, a fazer o que lhes compete, é convocado(a) para uma Invasão de Campo. Ou seja, pedem-lhe a si, e a todos, uma opinião, e forma-se uma roda em volta da questão em foco.
Gera-se uma democrática tertúlia, cujo desfecho será o ouro que o bandido (o senhor que é pago para decidir) recolhe e exibe em qualquer circunstância como sendo a legítima garantia da sua excelente decisão. Assim a resposabilidade dilui-se duma forma democrática, ligeira, como as bolachinas de água e sal. E ninguém é responsável, porque todos viram... durante a Invasão de Campo...

O mal é que, quem está acima, aceita isso bovinamente... Fazendo o mesmo, claro...

Eu cá, gosto de tomar decisões. Não gosto de Invasões de Campo, no meu local de trabalho. Que elas voltem para os estádios, onde é que é giro...
Já fui forçado a cometer erros, E assumi-os, sem mencionar as válidas desculpas exteriores a mim que os geraram. Tomo as minhas autocráticas decisões, boas ou más, Assumo-as e pronto.

Curiosamente, talvez pelo inesperado, talvez pelo insólito da minha atitude, embora sendo eu o prevaricador, a culpa, essa, encontro-a na expressão alheia...

11 comentários:

Maria Manuela (M&M) disse...

Concordo contigo...
Responsabilidades, cada um com as suas.

Acresce o facto de as participações em rixa estarem previstas e serem punidas no âmbito do Código Penal....

bjo

Rocket disse...

M&M

Tudo ao molho... não há paciência...


Bjo

Estafermococus disse...

eu nunca vi o Eusébio a jogar, mas logo à noite deve fazer falta ao SLB.

Rocket disse...

estafermococus

Sem dúvida... mesmo estla como está.. e mais. este clube deve muito a esse homem...

Xunana disse...

Invasões de campo... nunca cheguei a ver uma (ao vivo e a cores num jogo da bola, entenda-se), mas a minha vida mudou para sempre no dia em que compreendi o que é o fora de jogo empresarial:
estás lá, mas não devias estar... não estás lá, mas devias estar... fizeste, mas não devias ter feito... não fizeste, mas devias ter feito... enfim, é o baloiço do dia-a-dia!
Diga-se em abono da verdade que, além das ivasões de campo, também há muitos foras de jogo em várias empresas deste nosso Portugal.

Beijo

Ju disse...

Logo à noite, até eu vou fazer uma perninha para ajudar o Benfica.
m&m, o Código Penal tem uma alíneas onde diz que as rixas relativas a jogos de futebol, são perdoadas a bem da nação...
Bju

Rocket disse...

Xunana

não sabes o que perdeste...
O problema das empresas é que toda a gente chuta, e nem sequer é para a baliza... e o dono da bola não se importa..

Rocket disse...

Ju

Não vale a pena, nem que vás a Fátima todas as semanas. O problema do Benfica é que o clube é o espelho deste país, na questão orgânica... será por isso que somos seis milhões deles?
... a miséria adora companhia...

Magucha disse...

Pena já terem remodelado os estádios, as primeiras invasões de campo parecem-me muito mais saudáveis que as segundas!

Mas além das invasões de campo nas empresas, chateia-me os passes da responsabilidade duns para os outros, tentando driblar as consequências. E os cartões vermelhos aos políticos e gestores públicos? Em vez de arcarem com a responsabilidade e resolveram a porcaria que fizeram, demitem-se (ou são demitidos) do cargo, para esperar nos bancos laterais que a poeira assente e entrem no próximo jogo...

Deve ser por isso que não gosto de futebol. Nem do desporto, e muito menos da versão empresarial do mesmo.

(Noutro dia reparei que o estádio da Luz parece um cesto gigantesco. Deu-me uma vontade enorme de atirar lá para dentro os carros estacionados à minha frente no IC19.)

Rocket disse...

Magucha

Atirar carros só para o meu camião de recolha que caninamente te vai seguir...
O pessoal gosta é do low-profile. Heróis só o Robin dos Bosques ou o Super-Homem, desde sempre o meu favorito.
A malta não se apercebe é que, aos poucos, com este saber-viver à portubuesa, a única figura de ficção com que se vão parecer é com... o Gollum...

bjs dos que fazem bem...

Helena disse...

eu já comntei este post tr~es vezes mas parece que os meus comentários não entram...


Beijinho