sexta-feira, 27 de junho de 2008

Perfeitinhos

Se eu tivesse nascido em Esparta, minutos após ter vindo ao mundo estaria despedaçado no fundo dum penhasco. O Silvester Stallone também. Tanto eu como ele nascemos com raquitismo. O Stephen Hawking, esse, poderia nem sequer passar do terreiro da casa onde nasceu. Seria esmagado ali mesmo, contra uma parede, e depois atirado aos cães. Sofre de esclerose lateral amiotrófica. Na Alemanha dos anos trinta, ele até teria sobrevivido, mas apenas inté o momento de existir uma vaga para ele entrar para um vagão com destino a Dachau...
Há dois anos uma amiga relatou-me o seguinte: Uma outra amiga sua, que eu não conhecia, tinha vários gatos e um deles estava a sofrer uma marcação violenta por parte dos outros. As feridas eram mais que muitas e ela não conseguia protegê-lo. Sofria o equivalente felino da trissomia 21...

Esparta era uma sociedade guerreira e não podia esperar dezoito anos para chegar à conclusão que, graças a uma vontade férrea de se ultrapassar, o Stallone se tornaria quase um sex-symbol e um ícone dos action man (que é termo com que já me mimaram à laia de velado insulto...). Em Esparta, a comida era pouca e a gestão de material de combate (homens) e fábricas do mesmo (mulheres) era uma prioridade. Andavam sempre em guerra.
A Alemanha de Hitler queria seguir o exemplo espartano e alargá-lo a toda a actividade humana da sociedade. Pretendia-se que a raça ariana fosse uma raça conquistadora de territórios e de riquezas, a herrenvolk, que subjugaria pela força todas as outras.
Deixo para outro tópico uma reflexão sobre racional-irracional, porque quero escrever, mesmo, sobre isto. E quando escrevo escrever, é o acto de pegar na vassoura... contudo, convém analisar o que motiva os gatos e outros animais a ostracizarem violentamente os menos válidos, quer atacando-os, quer desprotegendo-os, de forma a colocá-los à frente de outros predadores e assim poupar os mais capazes de perpetuar os bons genes da espécie...

Qual é a diferença entre a nossa sociedade e os exemplos referidos?
Pelos vistos... nenhuma, se nós deixarmos...
.

34 comentários:

Patti disse...

Os animais até têm desculpa, na sua suposta irracionalidade, põem de lado aquilo que não tem chances de sobrevivência, segundo o seu instinto, no seu mundo animal.

Os homens também.
Na sua suposta irracionalidade, põem de lado aquilo que não tem chances de sobrevivência, segundo o seu instinto, no seu mundo animal.

A diferença é que não têm desculpa.

(E mais não digo por senão vomito)
Excelente post!
O mal nunca deve ser esquecido

Carla disse...

nenhuma...excepto a capacidade de racionalizarmos emoções e situações!
O problema é que muitas vezes essa racionalização conduz certas mentes a atitudes próprias de seres irracionais.
...como não conheço a perfeição deixo-te uma pergunta: a perfeição não cansa?
beijos

Rocket disse...

patti

os meus gatos não seriam capazes de maltratar nenhum outro... vivem segundo conceitos humanistas... e as pessoas? quando lá chegam?

os gatos fui eu que os ensinei...

Rocket disse...

carla

os animais também racionalizam, como o irei comprovar...
também não conheço, nem quero conhecer a perfeição. o termo lembra-me sempre a definição, pelo salvador dali, que também escrevia: "...tão perfeito como um pêlo do cu..."
no dia em que tomar contacto com a perfeição tomo cicuta, porque a minha moto está avariada... senão iria dar uma volta sem retorno pela serra da arrábida...

beijos

Patti disse...

Nem a minha! Que foi uma gata brava, maltratada, apanhada na rua, quase a morrer.
Não gostava de crianças e quando elas se chegavam perto, recolhia-se, andava para trás, devagar, atenta.
Nunca esticou a unha.
Foi amada por mim.

Rocket disse...

patti

os meus têm amor todos os dias, que retribuem generosamente... nunca os ouvi assoprar...

blueminerva disse...

É de facto pertinente a questão... o acto de ostracizar um ser menos capaz é quase institivo, é o facto de muitas vezes não compreendermos o que é diferente de nós e mais fácil do que tentar agrupar o elo mais fraco, é elimina-lo. A resposta está em educar que tem uma mente restrita às diferenças.
Beijocas larocas

Rocket disse...

blue

não é quase. é-o inteiramente.
mas, assim como somos educados a ser assim ou assado também podemos sê-lo nisto.

tantas vezes que olho para alguém, perfeitinho de aspecto, e que acho que o mundo estaria bem melhor sem... mas tenho que eliminar esses pensamentos à nascença, fui educado para isso...

a civilização é feita destas coisas, não de motores de combustão...

bijinhos nessa bela testa...

Coragem disse...

Dizem, que a unica coisa que nos distingue dos animais, é o simples facto de nós, termos a perfeita noção que não o somos...

Eu começo a ter duvidas se realmente sabemos o que somos, se temos a noção que está ao nosso alcance marcarmos a diferença.

Ando a evitar cair numa crise existencial, mas sempre preferia que num abismo...

Beijinho

Rocket disse...

coragem

dizem mal. eu sei que sou um animal...mesmo!
e conheço suficientemente bem a História para sorrir quando deparo com essas distinções...

não existe gravidade no facto de quando em vez termos dúvidas existenciais, as conclusões consequentes são aquilo que nos autodefine, socorre-te dos amigos e de quem te quer bem antes de lhe chamares crise...

beijinhos fraternais

Coragem disse...

Beijos fraternais (lol) e verdadeiros.
Ok, estamos numa de definir beijos,
Não deveriam ser eles também animalescos? lol

Beijinhos (apenas)

Rocket disse...

coragem

que perfeitinhos sejam apenas os nossos sentimentos bons nos quais incluo a amizade ganha aqui por pessoas como tu que nunca vi...

bijinhos perfeitinhos LOL

Borboleta disse...

Depois de algum tempo atrás termos falado de animais e o facto de eles serem racionais, vens com um post destes...

Não tenho a capacidade de ser muito resumida quanto a este assunto.

Primeiro pela profissão que tenho e depois porque eu também tive um irmão tal como o João Maria (mas que não chegou ao 1 ano de idade - problemas cardiacos).

Por norma consigo comentar os teus posts, mas hoje...
Desculpa!...não o consigo, se o fizesse acho que não sairia daqui tão cedo, ou talvez fosse mais fácil uma conversa pessaolmente ou um mail...

Beijinhos

vita disse...

Pois..que dizer, existe coisas que eu não consigo lidar, que me amedrotam que me fazem pensar que cada vez mais se vive sem esperança de nada, vive-se por viver no meio de um mundo cada vez mais assustador.
Estas situações fazem-me ficar triste e impotente.

Beijo mauzão

Rocket disse...

borboleta

estás sempre à vontade, claro... fica bem e beijinhos

Rocket disse...

vitinha

tens razão. isto está a piorar em relação aos valores humanos, aos sentimentos e à compaixão.
o sistema está a triturar isso tudo com o seu desespero...

bjinhos bonzinhos

LeniB disse...

Consigo perceber o instinto irracional dos animais, até a sua força bruta.
Não consigo é aceitar a razão bruta, tosca e mesquinha dos que se dizem racionais.
Obrigada...
:)

Rocket disse...

lenib

quando falas dos animais referes-te a mim, certo? : )

João C. Santos disse...

A nossa sociedade vive em guerra, com armas menos agressivas fisicamente mas que prococam graves lesões no ego, na auto-estima das pessoas, então e continua a chamar-se sociedade ou aqui o melhor nome já é "arena"?

Rocket disse...

joão c. santos

a falta de referências morais e éticas, o déficit de valores, a vertigem da mudança e a cada vez maior volatilidade de sobrevivência financeira empurram-nos para algo cada vez mais parecido com uma selva.
não sou crente, mas o mérito de uma educação religiosa era o de criar padrões comportamentais compassivos.

este caso em particular, nos anos sessenta, seria impensável...

aparece sempre

D.Antónia Ferreirinha disse...

Excelente post.
Gostei imenso das analogias aqui referidas.
Beijinho e bem hajas.

Mlee disse...

Pronto lá vem a miúda que ainda acredita no lado cor-de-rosa da vida estragar a mood geral ... eu acredito que muita coisa pode mudar com a geração que agora está sentada nas cadeiras de uma creche e que, aí, aprende a partilhar a sala de aula e o recreio da escola com muitas destas diferenças (isto não era assim connosco), habitua-se a olha-las com outros olhos, mais bondosos, mais benevolentes e pelos exemplos que me estão próximos, mais interessados.
O obstáculo maior, que talvez requeira mais duas gerações em cima desta de que falo, chama-se "money makes the world go around" e esse, à luz do que se fala, dá-me vómitos ... mas até esse, há-de ser ultrapassado.
Até lá, doêm-nos, naturalmente, exemplos como este!
(obrigado pelos Divo e pelo sorriso do João)
Beijinhos aos montes.

Rocket disse...

d.antónia ferreirinha

a patti, a lenib e tu... foi quem me apresentou este caso...

bjinhos

Rocket disse...

mlee

como já disse por aqui, isto nos anos sessenta seria impensável. os valores eram diferentes. talvez a sensibilidade em relação a uma trissomia 21 fosse menor, mas em relação aos pais seria superior.
num jantar de anos na segunda-feira, conheci um alto funcionário da banca que me relatou o seguinte: nos açores, quando se deslocou para implementar balcões do seu banco encontrou situações de crédito à habitação sui generis. a mensalidade era estabelecida de uma forma personalizada, do género... este é fulano, filho de sicrano, trabalha nisto e ganha x, logo pode pagar y... e as pessoas chegavam a acordo em segundos... isto numa sociedade em que as relações humanas eram e são o dia-a-dia...

acredito que as coisas mudarão, e estão a mudar como referes, nos bancos das escolinhas mas neste presente...

...um indivíduo é apenas um impresso preenchido transferido para uma base de dados do office...

jinhos maninha

Su disse...

ops não era necessario um exemplo ilheu....esse é o dia à dia da banca...este x é flho de y q tem ww e......ok.......

na realidade não acredito que nada mude ........ou melhor não acredito que nada melhore...
desde que passamos a ser parte dum formulário ........... a diferença está nos zeros...... cada vez mais assim é......

jocas maradas de ser

Su disse...

dia a dia..opssss

Rocket disse...

su

só se nós deixarmos... eu cá sou fodido... e não deixo.

Rocket disse...

...su

...e "oops" é o que eu ouço quando me tratam a mim ou alguém debaixo da minha asa como um impresso. quando o chefe por mim chamado com um olhar fulminante vem a meio do corredor já traz a solução e debita-a em voz alta devido à distância... e mesmo assim, faço-me de surdo para a ouvir de novo...

jocas maradas e vertiginosas

Tá-se bem! disse...

Certa vez, ouvi um psicólogo afirmar que não existe dupla personalidade e que o pior (de alguém) seria na realidade a sua verdadeira personalidade... Tudo isto a par da irracionalidade.. Estamos feitos, é o que é!

De qualquer forma, gostei da tua "vassourada"!
A perfeição não existe...
Pena que nem todos assim pensem.

Abração :)

Rocket disse...

tá-se bem!

a perfeição existe no fim do arco-irís, é para isso, e só para isso que ela serve, para nos fazer sonhar. o pior é que os sonhos de uns tornam-se nos pesadelos de outros, como se vê ao longo da história...

abração

Consuetudo disse...

Uns perfeitos anormais! Somos portanto, imperfeitos. todavia, aperfeiçoáveis. Há quem tenha familiares chegados com deficiências profundas, irmãos, filhos ou Pais. E essas são pessoas que sabem do que aqui se fala. Vivem com dificuldades em cada dia, que muitos de nós nem sequer contemplamos durante uma vida inteira. Temos a noção de crueza, que ajuda a compreender. A cadeia alimentar, a selecção natural, e outros conceitos caracterizam-na. Se por uma lado, a vida já integra desafios difíceis à sobrevivencia para um homem dito normal, para quem o não seja as dificuldades são bem maiores. É de facto mister, teres metido o pessoal a pensar nisto! Já passei momentos da minha vida com pessoas que só percebi das graves deficiências de que sofriam quando me pediram dinheiro emprestado, ou me tentaram vigarizar quando me recusei a emprestar-lhes.Ou aqueles que trajando uma veste atraente se revelam uns presumidos vazios filhos da puta irritantes. Esses são os verdadeiros deficientes. Posso falar assim, pois tive um amigo paraplégico(já o conheci nessa condição)que era tão igual aos outros, que por vezes, saíamos todos do carro e esqueciamo-nos do Paulo e do ritual da cadeira, voltávamos para trás, é claro. "Seus cabrões!", Ouviamos logo. Mas ele era tanto um de nós, que isso às vezes acontecia. Uma vez organizei corridas de pessoal em cadeira de rodas no centro de Parelesia cerebral de Oeiras, e foi uma curte para toda a gente. Enfim, para mim os diminuidos são mesmo os que me galpam quando atesto o carro. São os que, pagando os usurários montantes de impostos que pago, me mandam para casa uma conta de € 143,00 por ter feito uma radigrafia ao joelho, e outra à clavícula, quando fui assistido no CHC directamente em consequência do mortal que dei de mota na marginal o ano passado. Esses sim. Agora os outros, por regra não fazem mal a uma môsca. São pessoas afáveis e fáceis de agradar, melhores seres humanos que muitos e muitas. Educo os meus filhos, na esteira dos Princípios a que aludo. Ensino-os que é fácil descriminar uma pessoa diferente. Que o difícil, o elevado, e o menos vulgar de ver fazer, é aceitá-lo na sua diferente apresentação e apreciar a pessoa que está para lá desse particular. Talvez assim, dentro de alguns anos hajam diferenças que valham a pena assinalar, entre os modelos societários referidos e o actual. E com isto me retiro. Desculpa o texto longo, por ventura, a encerrar o naipe de belos comentários aqui tecidos a mais um grande post de V. Exª, amigo Rocket. Aquele Abraço.

Rocket disse...

consuetudo

merecia introdução, mas ainda chego a tempo de pedir uma salva de palmas...

deficientes são os que referes, e mais nada...

grande abraço

lilipat2008 disse...

Este é o instinto da selecção natural...sobrevivem os mais fortes...

Mas na nossa sociedade temos condições para integrar os mais fracos e torná-los tão ou mais fortes que os outros...basta querermos...

Belo post...

Bjitos

Rocket disse...

lilipat2008

a questão é questionar quem são os fracos e os fortes. no liceu americano os fortes são os quarterbacks, que normalmente sacam as cherleaders e curtem à brava. os fracos são os nerds, que não têm vida social, não curtem, sonham com o dia em que beijarão uma rapariga e vivem para os estudos.
os primeiros, na idade adulta, acabam a trabalhar para os segundos, como seus empregados...
o stephen hawking vive numa cadeira de rodas e não mexe as mãos...é um dos maiores astrofísicos...

bjinhos

bjinhos