
Vender a alma ao diabo é mais fácil do que se pensa. Mas, mais fácil ainda... é comprar-lhe uma.
E é o que estamos a fazer, neste momento. Nós, Ocidente, em território chinês.
Têm a sua graça, as acusações redutoras que se fazem à China. Direitos humanos? Boa...
Lembro-me da minha primeira viagem de comboio em Portugal, após o regresso de África. O destino era a Parede, tinha eu doze anos. Senti fecharem-se as portas do comboio e, num piscar de olhos, a chegada ao destino. Isto, porque em África qualquer viagem durava, no mínimo, seis a oito horas (quando não um dia inteiro) e aquela viagem de comboio demorou vinte minutos.
A travessia de Portugal, de norte a sul, é uma brincadeira de crianças comparada com as viagens que fiz nos "subúrbios" de Nova Iorque, comigo ao volante. Normalmente atravessavam-se três ou quatro estados e duravam quase um dia, mas não me cansavam tanto como uma ida a Viana do Castelo. Isto porque a percepção do tempo varia com a amplitude espacial da área na qual nos encontramos. Ou seja... tudo é relativo.
A relatividade dos valores culturais continua a não ser tida em conta na Diplomacia. "Direitos Humanos" é um termo caro a nós ocidentais, mas nada representa para um operário chinês. A vida humana, na China, vale menos que um fardo de palha. Haverá porventura mais homens que fardos e o gado precisa de alimento. Por isso talvez, lá os fardos sejam mais acarinhados que o couro de cada cidadão.
Olha-se para a China como um ogre que devora o Tibete. Já lá vamos.
Primeiro convém referir o que já todos se esqueceram, excepto os chineses: a China foi, ela própria, num passado recente, uma violenta vítima do Japão e do Ocidente. E nunca se esqueçam de um implacável princípio: as maiores vítimas tornam-se nos piores carrascos.
No princípio do Século Vinte, um dos maiores motores da economia era o comércio de droga, que agora se demoniza, e se apelida de tráfico. Em 1900 era legal, cotado em bolsa e enriquecia muita gente de bem. A China era um pivô comercial importante, sobretudo como produtor de ópio. E era explorada à boa maneira colonialista, com os fardos a saírem de lá a dois tostões para depois serem vendidos em Liverpool a quinhentos paus.
Os chineses fartaram-se e revoltaram-se. Na Revolta dos Boxers só se fala, em termos históricos, dos duzentos e trinta estrangeiros mortos, mas ninguém refere os milhares de chineses que sucumbiram durante e depois da revolta que custou o pouco poder que ainda mantinha a dinastia Qing. Os ocidentais, mal o ópio perdeu interesse comercial, abandonaram a China, mas os japoneses... não. Ficaram por lá a infernizar a vida daquele povo até ao fim da segunda guerra mundial. E como! Perderia muito tempo com pormenores, mas conto apenas o seguinte: a um soldado japonês reservava-se o direito de matar imediatamente qualquer cidadão chinês que não o saudasse... Morreram centenas de milhares...
Mas essa mortandade não foi nada frente aos milhões que os próprios chineses mataram na revolução cultural...
E, aqui, é notícia, a abrir telejornais, um taxista baleado...um.
Vê-se assim a diferente cotação da vida humana em diversas latitudes...
O Tibete era, e continua a ser considerado um estado soberano, mas na verdade nunca se comportou como tal. Um estado digno desse nome tem a obrigação de se proteger. E para isso, não necessita, de todo, de um enorme exército dissuasor...
Eu, se me aparecerem dois ou três caramelos para me fazerem a folha, e se tiver sorte, talvez o dia seja meu... mas, se forem mais que isso, e se conseguir fugir, sei que não descansam enquanto me encontrarem, por isso, pego no telefone e ligo para alguém com quem mantenho uma aliança, um pacto. Assim quando me aparecerem quatro gajos, do meu lado aparecem outros tantos... ou mais (é claro que tenho que estar para eles, quando necessário). Na política internacional as coisas também funcionam de forma análoga, embora mais elaborada, mas o princípio da aliança é algo poderoso. O facto é que o Tibete era um estado espiritual, e não se preocupou, de todo, em salvaguardar a sua soberania, deixando-a nas mãos da geografia e da sorte. E é agora que o Dalai Lama se preocupa... tarde de mais. A cedência dos Jogos Olímpicos funcionou como uma chancela diplomática internacional à ocupação chinesa... não há nada a fazer com o que há, e a única hipótese seria um banho de sangue mediático. Mas, mesmo isso...
Neste momento sinto que o Ocidente está a dar, completamente, o cu à China. Não só na questão Olímpica, mas também na comercial e industrial. Económica, em suma. Oferecemos, de mão beijada, tecnologia de vanguarda, e o que se recebe em troca é questionável. A indústria automóvel chinesa está tecnologicanente avançada, graças à cedência de engenheiros e
know-how, nomeadamente da BMW. Constroem-se Bms e só o logotipo, parte do
design...e o preço, é chinês. O sumo é bávaro. Estamos a muscular e transmitir uma enorme dose de confiança aquele gigante.
E eis a prova que a China encheu o peito: nos Jogos Olímpicos, vinte e seis regras, alguma de natureza quase medieval, para nós ocidentais (e como nos pesou a Idade Média...) e, a acrescentar, interdições de natureza mediática, algumas de índole moral... Toma lá.
O destaque que a China terá nestes Jogos Olímpicos, a par das vitórias desportivas, que irá somar mais que outro país, vai oxigenar e fortalecer ainda mais este dragão que acorda. E o resultado vai ser funesto, para nós ocidentais. Imaginem: malta nas fábricas a trabalhar quase à borla... e não só nas fábricas: escritórios,
poules informáticas, estúdios discográficos e, dentro de muito pouco tempo, gabinetes de engenharia,
design, arquitectura... (vá lá, escapam-se os advogados...).
Esta situação, da esparrela onde todo o Ocidente se meteu, evoca-me a imagem daquela mulher que se casa com um milionário, com o qual se deita na noite de núpcias, e que, ao acordar, o mesmo revela aquilo que escondeu durante o noivado: a sua natureza psicopata.
Agora já está, e pela primeira vez na História, uns Jogos Olímpicos vão definir de forma atroz o futuro de várias gerações. Irreversívelmente.
Mas a melhor imagem, quanto a mim, é a da posição "à rodeo":
Quem está por cima, sussurra a quem está por baixo, o nome repetido de outrém, e depois... tenta aguentar, em cima, o máximo tempo possível... como num
rodeo.
E quem vai estar por cima... é a China.
.